Estado da Arte – Details, episodes & analysis
Podcast details
Technical and general information from the podcast's RSS feed.


Recent rankings
Latest chart positions across Apple Podcasts and Spotify rankings.
Apple Podcasts
🇩🇪 Germany - philosophy
11/05/2026#77🇩🇪 Germany - philosophy
28/01/2026#89🇫🇷 France - philosophy
13/01/2026#98🇫🇷 France - philosophy
12/01/2026#63
Spotify
No recent rankings available
Shared links between episodes and podcasts
Links found in episode descriptions and other podcasts that share them.
See allRSS feed quality and score
Technical evaluation of the podcast's RSS feed quality and structure.
See allScore global : 53%
Publication history
Monthly episode publishing history over the past years.
Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga
samedi 1 novembre 2025 • Duration 01:05:29
Seja qual for a sua espiritualidade, imagine o ritual que mais eleva o seu coração. Pense também na celebração cívica que mais excita suas paixões patrióticas. Agora, imagine uma cúpula geopolítica – com chefes de Estado, embaixadores e suas delegações. Um festival cultural – com arquitetura monumental, galerias de esculturas, récitas de poetas e filósofos, música, dança, truques de mágica. Acrescente uma feira de mercadores e inventores. Agora, coloque tudo isso sob o mesmo sol, e, bem no centro, atletas nus em competições de alta performance. Pronto, agora você tem um vislumbre do que eram os jogos olímpicos na Grécia Antiga.
A disputa foi a quintessência da vida grega, o combustível de sua cultura. As cidades competiam entre si em leis e instituições; os poetas, em versos; os filósofos, em argumentos. Hesíodo desafiou Homero. Ésquilo e Sófocles concorriam nos festivais teatrais de Dionísio. Xenófanes contestava os poetas; Sócrates, os sofistas; os estoicos, epicuristas e céticos contestavam uns aos outros. A historiografia de Heródoto nasceu da guerra contra os persas e a de Tucídides da guerra entre Esparta e Atenas. A democracia era uma arena onde cidadãos disputavam o poder pela força da palavra. Os espaços de treino e disputas físicas foram sublimados e hoje consagram os nomes de nossas instituições culturais e educacionais: as palestras, a academia, os liceus, o ginásio.
Mas se o espírito agônico dos helênicos foi destruição criativa, foi também criação destrutiva, que os impediu de forjarem uma nação, os mergulhou em guerras fratricidas e levou à sua capitulação sob potências estrangeiras.
A política dividia as cidades gregas, a religião fracassou em uni-las – mas o esporte conseguiu. Nos jogos, o conflito se transformava em espetáculo e a rivalidade em celebração. Guerras eram suspensas pela trégua sacrossanta; caravanas atravessavam mares e montanhas; e a Grécia, eternamente dilacerada, conhecia por instantes a comunhão. Sob o calor e a poeira de Olímpia, sacrifícios e procissões conviviam com o ruído das corridas, o brilho das armaduras, o sangue e o suor das lutas. Menandro resumiu a cena em cinco palavras: “multidão, feira, acrobatas, entretenimento, ladrões”.
Os jogos foram um microcosmo da cultura helênica e também sua apoteose; o ponto de fusão entre arte, política e fé, onde a Grécia não só reverenciava os deuses, mas celebrava o vigor humano. O atleta grego era uma encarnação do equilíbrio cósmico, um sacerdote do corpo. A coroa de oliveira, rústica e efêmera, valia mais que qualquer tesouro, porque simbolizava a consagração do indivíduo diante da eternidade – e a santificação da alegria coletiva. Os gregos humanizaram os deuses para divinizar os homens. E os jogos os treinavam nessa pedagogia da glória, ensinando-os a vencer sem soberba e a perder com dignidade, e os imergiam numa teologia do júbilo, unindo a religião e o prazer, a guerra e a dança, o esforço e a graça, a beleza e o bem – o corpo esculpido pelo exercício e a alma disciplinada pela virtude.
ConvidadosDelfim Leão: Professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra.
Gilberto da Silva Francisco: Professor de História Antiga na Universidade Federal da São Paulo.
Nuno Simões Rodrigues: Professor de Letras Clássicas da Universidade de Lisboa.
Referências- O Espírito Olímpico no Novo Milênio, coordenação de Francisco Oliveira.
- A Brief History of the Olympic Games, de David C. Young
- Olympia. Robin Waterfield.
- Los Juegos Olimpicos y el Deporte em GreciaI, de Fernando García Romero.
- The Olympic Games. The First Thousand Years, de M.I. Finley e H.W. Pleket.
- Olympia. The Classical Hellenic City-State Culture, de Thomas Heine Nielsen.
- “A ascensão da Grécia”, em A História da Civilização. V. II. A Vida da Grécia, de Will Durant.
- “Ancient Olympics”. Documentário do History Channel.
- “Olimpíadas”, no podcast História em Meia Hora.
- “The Olympic Games”, em The Games Odyssey Podcast.
- “Origins of the Olympics”, no podcast The Ancients.
O post Os Jogos Olímpicos na Grécia Antiga apareceu primeiro em Estado da Arte.
Hamlet
jeudi 9 octobre 2025 • Duration 01:00:17
Responda rápido: qual peça de Shakespeare lhe vem primeiro à cabeça? Ou qual citação: “Ser ou não ser”? “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”? “O resto é silêncio”? Ou qual a primeira cena: um jovem de preto interpelando uma caveira? Será coincidência que por trás de tudo isso repouse um único nome?
Hamlet é, de todas as obras do teatro moderno, a que exerce o fascínio mais persistente – e implacável. A tragédia do príncipe dilacerado entre a reflexão e a ação atravessa os séculos como um espelho oblíquo, turvo, fissurado da condição humana, onde cada época descobre suas próprias inquietações e conjura seus próprios fantasmas.
A peça desafia toda classificação. É, a um tempo, drama familiar, meditação existencial, thriller político, crítica social e uma reflexão sobre o teatro e o próprio ato de representar. É intriga de corte, mas também metafísica do ser. É paralisia excruciante numa espiral de choques e rupturas. No coração do drama pulsa não só um vingador hesitante, mas um palco povoado por máscaras, danças macabras, jogos de aparência e silêncios perturbadores. Entre o espectro do pai assassinado, a mãe desposada pelo assassino, um amor despedaçado, amizades fraudulentas e uma carnificina apoteótica, o príncipe da Dinamarca – soturno, sardônico, sagaz – se move num labirinto de espelhos como um ator de si mesmo – ensaiando ações, testando palavras, pensando alto diante do abismo e transmutando a dúvida em imagens líricas de alta voltagem.
Com sua tapeçaria de temas – a loucura e a razão, a justiça e o crime, a fantasia e a verdade, a corrupção do poder e a fragilidade da vida –, nenhum outro drama entrelaça com tanta densidade a inquietação filosófica e a paixão poética. Entre os solilóquios torturantes e o sarcasmo dos bobos, não só transbordam os dilemas do herói, mas a consciência moderna em ebulição. De Montaigne a Nietzsche, de Freud a Camus, Hamlet antecipa temas arquetípicos de nossa cultura: o “gênio melancólico” do romantismo, a “angústia da escolha” existencialista, os “complexos neuróticos” da psicanálise.
Se Hamlet é um enigma, é também um espelho – e uma ferida. O que nele hesita, pensa. O que nele pensa, sangra. E o que sangra, pergunta. Pergunta como só a poesia sabe perguntar: sem esperar resposta – mas com a estranha esperança de que o ato de falar ainda possa nos redimir.
ConvidadosJosé Francisco Hillal Botelho: escritor, poeta, crítico e tradutor de Shakespeare.
Fernanda Medeiros: professora de Literatura Inglesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e co-organizadora de O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe.
Liana Leão: professora de Literatura Inglesa da Universidade Federal do Paraná e co-organizadora de O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe.
Referências- O que você precisa saber sobre Shakespeare antes que o mundo acabe, org. F. Medeiros e L. Leão.
- Shakespearean Tragedy (Tragédia Shakespeariana), de A.C. Bradley
- Hamlet in Purgatory, de Stephen Greenblatt.
- Shakespeare: The Invention of the Human (Shakespeare: A Invenção do Humano) e Hamlet: Poem Unlimited (Hamlet: Poema Ilimitado), de Harold Bloom.
- Shakespeare Our Contemporary (Shakespeare, Nosso Contemporâneo), de Jan Kott Methuen.
- Hamlet and Oedipus (Hamlet e o Complexo de Édipo), de Ernest Jones.
- What Happens in Hamlet, de J. Dover Wilson.
- “Hamlet and His Problems”, em The Sacred Wood, de T.S. Eliot.
- The Cambridge Companion to Shakespeare (Guia Cambridge de Shakespeare), ed. por Emma Smith.
- “Hamlet”, entrevista para o programa In Our Time da rádio BBC 4.
- Discovering Hamlet, documentário de Lyndy Saville.
- Falando de Shakespeare e Shakespeare: o que as obras contam, de Barbara Heliodora.
- “Hamlet”, The Play Podcast.
- “Hamlet”, podcast Shakespeare for All.
- Hamlet e a filosofia, de Pedro Süssekind.
Ilustração: gerada por IA.
O post Hamlet apareceu primeiro em Estado da Arte.
Alexandre, o Grande
mercredi 2 avril 2025 • Duration 59:35
O que você conquistou aos 30 anos? O filho de Felipe da Macedônia estudou com o maior filósofo de seu tempo – talvez de todos os tempos –; unificou as cidades-estado gregas após séculos de disputas fratricidas; viajou mais de 30 mil quilômetros na aventura possivelmente mais audaciosa da história humana; fundou 70 cidades; elevou-se ao Olimpo dos maiores generais de todos os tempos, como César, Gengis Khan ou Napoleão, mas, diferentemente deles, lutava na linha de frente e jamais perdeu uma batalha; conquistou o mais poderoso império de seu tempo e criou o maior império que a humanidade já vira, estendendo-se dos Balcãs até a Índia; Alexandre até se tornou um deus.
Caracterizá-lo, como fizeram alguns modernos, como um “príncipe da paz” idealizador dos direitos humanos universais e da comunidade das nações unidas é abusar do romantismo ao ponto do delírio. Alexandre, o grande herói, foi também um grande criminoso, que escravizou compatriotas, incinerou cidades, exterminou populações, assassinou amigos por despeito – e, há quem diga, até seu pai por ganância. Aos 32 anos, parecia-se cada vez mais com um déspota oriental cheio de caprichos cruéis e autodestrutivos. A morte prematura, por alguma moléstia ordinária potencializada pelo abuso do álcool, talvez tenha sido uma benção que lhe poupou fracassos e infâmia. E, talvez, por justiça poética, o preço de sua ambição desmedida tenha sido a dissolução instantânea de seu império.
Dizem que Alexandre chorou ao pensar nos mundos que nunca conquistaria. Mas seu legado ignora fronteiras de tempo e espaço. Seu sonho de fundir num império multicultural e multilinguístico as duas superpotências de seu tempo, a Grécia, no Ocidente, e a Pérsia, no Oriente, foi tão improvável e espetacular quanto fundir os Estados Unidos à União Soviética nos tempos da Guerra Fria ou à China hoje. Como a carreira intelectual de seu mestre Aristóteles, sua carreira militar foi feita de conquistas e sínteses. As conquistas territoriais que ele consumou criaram o espaço para o Império Romano; e as sínteses espirituais que ele inaugurou gestaram o tempo da Cristandade.
ConvidadosDelfim Leão: professor de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra.
Henrique Modanez: professor de história antiga da Universidade de Brasília.
Thiago Biazotto: pesquisador de pós-doutorado em história helenística da Universidade Estadual de Campinas.
Referências- Os Heróis. De Alexandre o Grande e Júlio Cesar a Churchill e João Paulo II (Heroes), Paul Johnson.
- “Alexandre, o Grande”, em História da Civilização. Vol. II. A Vida na Grécia (The Story of Civilization), de Will Durant.
- Alexandre, o Grande (Alexander the Great), de T.R. Martin e C.W. Blackwell.
- A Extraordinária História de Alexandre o Grande (Alexander the Great), de Nigel Rogers.
- Alexandre, o Grande e o período helenístico (Alexander the Great), de Peter Green.
- Alexandre, o Grande (Geschichte Alexanders des Grossen), de Johann Gustav Droysen.
- Alexandre o Grande (Alexandre le Grand), de Pierre Briant.
- “Alexandre, o Grande”, episódio do podcast História em Meia Hora.
- “Alexander the Great”, episódio do programa In Our Time, da Radio BBC 4.
- “Alexander the Great”, episódio do podcast The Rest Is History.
- “Alexander the Great”, episódio do podcast How To Take Over the World.
Ilustração: Estátua e busto de Alexandre, o Grande, no Museu Arqueológico de Istambul.
O post Alexandre, o Grande apareceu primeiro em Estado da Arte.
Bizâncio – O Império Romano do Oriente
mercredi 19 mars 2025 • Duration 59:10
Quando o Império Romano morreu? Se você pensou no século Vº, errou por mil anos. É compreensível. O Império Romano do Oriente é praticamente terra incognita nos currículos escolares, pesquisas acadêmicas, mercados editoriais e estúdios cinematográficos. Mesmo admiradores de Roma desdenham essa saga milenar como “uma história monótona de intrigas de padres, eunucos e mulheres, de constante envenenamento, conspirações, ingratidão e fratricídio” (William H. Lecky). Para iluministas como Edward Gibbon, foi o “triunfo da barbárie e da religião”; “uma coleção inútil de orações e milagres”, segundo Voltaire; “um tecido de rebeliões, insurreições e traições”, “o trágico epílogo da história de Roma”, segundo Montesquieu. Não surpreende que na consciência popular o adjetivo “bizantino” reverbere obscurantismo, futilidade, cerimonialismo, e particularmente querelas labirínticas, bizarras, extravagantes, sinistras. Em suma, a traição do que havia de melhor na Grécia e na Roma clássicas.
Mas, francamente, isso exala na melhor das hipóteses paroquialismo, na pior, ingratidão. Por séculos, Bizâncio foi um escudo da Cristandade contra hordas asiáticas, vândalos africanos, os xás da Pérsia e os califas de Bagdá – sem ele a “Europa” não existiria e provavelmente nós ocidentais estaríamos de joelhos para Alá cinco vezes ao dia. Enquanto o império romano ocidental era despedaçado por tribos bárbaras, Bizâncio consagrou-se como o maior poder do Mediterrâneo, e Constantinopla, a metrópole mais cosmopolita e exuberante da Idade Média. Foi sobre o corpo de Bizâncio que os turcos otomanos ergueram seu império, reconfigurando o universo islâmico até os nossos dias. Foi o espírito de Bizâncio que civilizou os Balcãs, animou o embrião da Rússia e inspira até hoje a visão messiânica de Moscou como a “Terceira Roma”. Duas vezes mais longevo que o império romano clássico, foi Bizâncio que realizou o sonho arcano de Alexandre o Grande. Fundindo a cultura helênica, a administração romana, a mística asiática e a fé cristã, Bizâncio preservou as letras gregas, arquitetou a teologia ortodoxa, criou a arte sacra mais carregada de espiritualidade de todos os tempos e cimentou os códigos que alicerçam nossos sistemas jurídicos. A maioria das civilizações vive um ciclo de aurora, apogeu e crepúsculo, mas, provando seu vigor e flexibilidade, Bizâncio viveu pelo menos dois. E quando finalmente morreu, seu espírito insuflou o Renascimento na Itália, inaugurando a aventura moderna.
Tão fascinante, tão incompreendida, tão distante de nós e tão inusitadamente como nós, qual será a verdadeira história desta ponte de ouro entre a antiguidade e a modernidade, entre o Oriente e o Ocidente?
ConvidadosBruno Tadeu Salles: professor de história medieval da Universidade Federal de Ouro Preto.
Renato Viana Boy: professor de história medieval da Universidade Federal da Fronteira do Sul.
Referências- “O zênite bizantino” em História da Civilização. Vol. IV. A Idade da Fé (The Story of Civilization), de Will Durant.
- O Império Bizantino, de Hilário Franco Jr. e Rui de Oliveira Andrade Filho.
- “Império Bizantino” – Episódio do podcast História FM.
- “Império Bizantino” – Episódio do podcast História em Meia Hora.
- Byzantium. The Surprising Life of a Medieval Empire, de Judith Herrin.
- The Oxford Handbook of Byzantine Studies, ed. por E. Jeffreys, J. Haldon e R. Cormack.
- The Byzantine Achievement. An Historical Perspective, de Robert Byron.
- The Byzantine Empire, de Robert Browning.
- Medieval Europe. A Short History, de J.M. Bennett e W.C. Hollister.
- The History of Byzantium, podcast com dezenas de episódios.
- “Byzantium – Last of Romans” – episódio do podcast Fall of Civilizations.
- “Byzantium”, entrevista com Charlotte Roueché, John Julius Norwich e Liz James para o programa In Our Time da Radio BBC 4.
- A History of Byzantium, de Timothy E. Gregory.
- The Lost World of Byzantium, de Jonathan Harris.
- A Short History of Byzantium, de John J. Norwich.
- Byzantine Christianity. A Very Brief History, de Averil Cameron.
- A History of the Byzantine empire, de A.A. Vasilev.
- The Byzantine Empire, de Sir Charles W.C. Oman.
- A History of the Byzantine State and Society, de Warren Treadgold.
- “Byzantium and the Ghosts of Rome”; “Theodora: Empress of Byzantium”; “Justinian: Making Rome Great Again”; “Justinian & Theodora”, do podcast The Rest Is History.
- Hispania y Bizancio: una relación desconocida, de Margarita Vallejo Girvés.
- Guerra Santa: formação da ideia de cruzada no Ocidente, de Jean Flori.
- As Cruzadas Vistas pelos Árabes, de Amin Maalouf.
Ilustração: Capela Palatina (1132-1143), no Palácio Real de Palermo, na Sicília, encomendada pelo rei normando Rogério II. (Fonte: SmartHistory. Foto de A. Fein).
O post Bizâncio – O Império Romano do Oriente apareceu primeiro em Estado da Arte.
Moisés
jeudi 6 mars 2025 • Duration 56:20
A vida pode ser dura. Imagine que você é um órfão adotado pelos opressores de seu povo, perseguido pelos poderosos, refugiado entre seminômades. Você tem um temperamento instável, ora colérico ao ponto da selvageria, ora hesitante ao ponto da covardia, e, ah, sim, tem a língua presa. Já velho, você é forçado a contragosto a retornar e conduzir por um caminho árido um povo que vê você e sua família como estrangeiros e está sempre se rebelando, rumo a uma terra na qual será proibido de pôr os pés. O que é você senão uma pecinha insignificante na engrenagem do mundo, uma gota no imenso rio da história?
E, no entanto, como disse um historiador, Moisés “ilustra o fato, que grandes historiadores sempre reconheceram, de que a humanidade não progride invariavelmente por passos imperceptíveis, mas às vezes dá um salto gigante, frequentemente sob a propulsão dinâmica de uma personalidade solitária e extraordinária”. Seu monoteísmo ético desencadeou o processo pelo qual toda a visão de mundo da antiguidade foi destruída. Moisés não foi um dos muitos heróis e reis do mundo antigo, muito menos um semideus ou deus. Ele foi menos do que tudo isso, mas em certo sentido foi mais, assim como foi menos e mais que um profeta, um legislador, um libertador, um fundador espiritual. Há algo de profeta em Moisés, mas aquele que consumou a aliança entre Deus e seu povo não foi só mais um dos infindáveis mensageiros dessa aliança. Há algo de legislador, mas não como um mero codificador de regras e regulamentos e sim como enunciador de leis eternas. Há algo de historiador naquele que não escreveu a Torah, mas contou estórias consagradas nela e mudou a história da humanidade. Ele foi um libertador, não como um Garibaldi israelita, mas como alguém que libertou seu povo da submissão ao Faraó para submetê-lo a Yaweh. Foi um fundador espiritual, mas não fundou uma religião, só liderou um povo que é minúsculo até hoje, e ao fazê-lo lançou os fundamentos das duas religiões mais populares de todos os tempos. Abraão foi o pai do povo judeu, mas Moisés foi seu criador. A história do Genesis é a do nascimento de uma família; a história do Êxodo, a do nascimento de uma nação. Na primeira, Deus reserva para si o sangue de um povo, na segunda, sopra através desse povo seu espírito no mundo. Hoje, não só os judeus, mas cristãos e muçulmanos adoram o Deus revelado por Moisés. Para quase 60% da população mundial sua lei é sagrada, e, com exceção do extremo Oriente, sua fé é predominante em todas as regiões do planeta.
ConvidadosCarlos Augusto Vailatti: professor da Faculdade Evangélica de São Paulo e autor de As Dez Pragas e a Abertura do Mar.
Ruben Sternschein: reitor da Academia Judaica da Congregação Israelita de São Paulo.
Suzana Chwarts: diretora do Centro de Estudos Judaicos da Universidade de São Paulo.
Referências- “Israelitas” em História dos Judeus, de Paul Johnson.
- “Moisés e a Partida do Egito”, em História das Crenças e das Ideias Religiosas. V. I. (A History of Religious Ideas), de Mircea Eliade.
- Israel, Das Origens até Meados do Século VII a.C., de Adolph Lods.
- “Judeia”, em História da Civilização. Vol. I. Nossa Herança Oriental (The Story of Civilization), de Will Durant.
- Ordem e História. Vol. I. Israel e a Revelação (Order & History), de Eric Voegelin.
- Moses, de Gerhard von Rad.
- Moses. The Revelation and the Covenant, de Martin Buber.
- Moses. A life, de Jonathan Kirsch.
- “The Pentateuch and Israelite Law”, em The Cambridge Companion to The Hebrew Bible, ed. por S.B. Chapman e M.A. Sweeney.
- “Moses & The Exodus”, episódio do podcast The Ancients.
- The Encyclopedia of World Religions, org. R.S. Ellwood e G.D. Alles.
- Britannica Encyclopedia of World Religions, org. W. Doniger.
Ilustração: Moisés. San Pietro in Vincoli, Roma. De Michelangelo Buonarroti (c. 1513-15).
O post Moisés apareceu primeiro em Estado da Arte.
As invasões bárbaras
samedi 22 février 2025 • Duration 54:59
Quando o visigodo Alarico saqueou Roma 66 anos antes da queda de seu último imperador, Romulus Augustus – nome composto ironicamente pelos do primeiro imperador e do fundador de Roma –, São Jerônimo lamentou “a extinção da luz mais resplandecente de toda a Terra”, quando “o Império perdeu sua cabeça” e “o mundo pereceu em uma cidade”. Um século antes, Lactâncio afirmava que o mundo pode acabar rápido, mas não há nada a temer enquanto a cidade de Roma permanecer intacta. Desde então, as invasões bárbaras viraram o arquétipo da brutalização da vida civilizada, o “Declínio e Queda do Império”, na fórmula proverbial de Gibbon. Porém, como ele descreveu, o Império só caiu 1.000 anos depois em Constantinopla. Das letras e dos letrados resgatados de lá, a Itália concebeu o Renascimento, dando à luz a modernidade, em que o espírito de Roma inspiraria desde as artes clássicas às políticas republicanas, e hoje, como sempre, multidões de católicos são lideradas Urbi et Orbi pelo bispo da Cidade Eterna. Para os iluministas inebriados de classicismo, a sua queda foi o mergulho na “Idade das Trevas”.
Mas não seria a Idade Média uma idade de luz? A engenhosidade arquitetônica de suas catedrais góticas é mais fulgurante que qualquer maquinação romana para copiar os gregos; seus cavaleiros se bateriam aos maiores centuriões; seus escolásticos inventaram a universidade; seus poetas, o romance, e, do menor deles, surgiu talvez o mais são dos santos, Francisco. O Sacro Império Romano-Germânico, gestado numa noite de Natal pelo papa na basílica de São Pedro com a coroação do rei franco Carlos Magno, imperou mil anos até ser esmagado sob a bota do imperador francês Napoleão. As Letras latinas são belas, bárbaras, mas sua língua morta só frutifica barbarizada em pedaços nas nossas línguas românicas. Não é à República romana que a Inglaterra tributa seu parlamentarismo democrático e sua monarquia constitucional, mas às ligas tribais de celtas, anglos, saxões, bretões, normandos. A consciência e a arte germânicas são povoadas dessas bestas loiras que Nietzsche amava: Thor, Siegfried, Artur, Parsifal, Tristão, Isolda. Para Hegel, esse povo consumava a apoteose do Espírito Divino, inaugurando o império da verdade e da liberdade para o Universo. As igrejas protestantes, as nações e Estados europeus, nosso Novo Mundo americano – além dos eslavos, a Rússia, sua revolução, sua literatura, sua religião ortodoxa herdada do Império romano dos gregos em Bizâncio junto com o mito messiânico da Terceira Roma –, nada existiria como conhecemos não fossem os bárbaros.
Nem só legiões de Conans, vândalos e valquírias, nem cosmopolitas nórdicos, eram muitas vezes tribos civilizadas fugindo de tribos bestiais, ora abatendo Roma, ora se abrigando nela, ora combatendo seus invasores. O que conquistaram afinal? A morte de uma esplêndida civilização carcomida? Sua ressurreição pela barbárie? E o que revelam em nosso tempo de “invasões verticais dos bárbaros” e “tribos globais” e rebeliões das massas de imigrantes e refugiados – como o foram, aliás, os pais de Roma, bastardos selvagens como Rômulo e Remo e hordas asiáticas como os troianos de Eneias, o piedoso?
ConvidadosAdrien Bayard: doutor em História Medieval pela Universidade de Sorbonne em Paris.
Marcelo Cândido: professor de História Medieval na Universidade de São Paulo
Renato Viana Boy: professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal da Fronteira do Sul.
Referências- The Early Slavs: Culture and Society in Early Medieval Eastern Europe de Paul Barford.
- Myth of Nations. The Medieval Origins of Europe de Patrick Geary.
- La Formation de l’Europe et les invasions barbares, vol. I : Des origines germaniques à l’avènement de Dioclétien de Émilienne Demougeot.
- Die Goten de Wolfgang Giese.
- The New Cambridge Medieval History, Vol. 1: c. 500 – c. 700 ed. por Paul Fouracre.
- Barbarian Migrations and the Roman West, 376–568 de Guy Halsall.
- Rome’s Gothic Wars: from the third century to Alaric de Michael Kulikowski.
- Barbarian Tides: The Migration Age and the Later Roman Empire de Walter A. Goffart.
- Die Ursprünge Europas. Migration und Integration im frühen Mittelalter de Verena Postel.
- Romans and Barbarians de Edward A. Thompson.
- Les Invasions barbares de Pierre Riché et Philippe Le Maître.
- Medieval Europe – A Short History de Judith M. Bennett e C. Warren Hollister
Ilustração: A Batalha de Ludovisi. Sarcófago romano (c. 250-260 d.C.)
Produção técnica: Afrânio Cruz. Gravação original 22 de outubro de 2018
O post As invasões bárbaras apareceu primeiro em Estado da Arte.
Estoicismo
mercredi 5 février 2025 • Duration 58:55
Algumas escolas filosóficas gregas exprimiram recortes tão profundos da existência humana que em nossos dias se generalizaram em adjetivos. Quando dizemos que um sujeito é “cínico” ou “cético” esquecemos que estas são reduções simplistas de doutrinas complexas fermentadas em longas tradições. “Estoico” é popularmente um sujeito rígido no cumprimento do dever e imperturbável na desgraça. Há alguma verdade nisso, mas é só a superfície de um universo de ideias.
Como todos os descendentes de Sócrates, os estoicos buscaram obstinadamente responder uma única questão necessária: como viver uma vida digna de ser vivida? A resposta cética levava a um quietismo paralisante; a cínica, ao desprezo pela sociedade; a epicurista, ao individualismo hedonista, e nenhuma era compatível com o autocontrole e os sacrifícios necessários à vida coletiva. As religiões ancestrais já não cumpriam essa função; as velhas cidades-estado já não elevavam o ser humano à abnegação. Os gregos educados buscaram os consolos para as crises da vida na filosofia e pediram a ela uma visão de mundo que desse sentido à existência e uma esperança além da morte. O estoicismo foi a última tentativa da antiguidade de encontrar uma ética natural, e antecipando não só a ética, mas a teologia do cristianismo, os estoicos conceberam o mundo, a lei, a vida, a alma e o destino em termos de Deus, e definiram a moralidade como um desejo de se render à vontade divina. “Viver de acordo com a razão”, “viver de acordo com a virtude”, “viver de acordo com a Natureza” e “viver de acordo com Deus” são uma só e mesma coisa. Deus é, como o ser humano, uma matéria viva; o mundo é seu corpo, a ordem e a lei do mundo são sua mente e sua vontade; o universo é um organismo colossal do qual Deus é a alma, o sopro que anima, a razão que ilumina. O ser humano é para o universo como um microcosmo para um macrocosmo. A felicidade é só o ajuste racional de nossas vontades às leis do universo. O estoico se satisfaz com pouco, aceita sem reclamar as agruras da vida, é indiferente a tudo – a doença e ao prazer; ao opróbrio e à fama; à liberdade e à servidão; à vida e à morte – exceto à busca pela virtude e à aversão ao vício.
Em tese, era uma doutrina monstruosa de uma perfeição isolada, severa, prepotente e implacável. Na prática, forjou homens de coragem, santidade e boa vontade. Foi a filosofia mais popular do mundo antigo, e a mais versátil, encarnando-se em figuras tão díspares como, na Grécia, o fundador Zenão, um semi-semita rico que trocou a fortuna pela simplicidade, ou o pugilista asiático Cleantes; e, em Roma, o estadista Catão; o escritor Sêneca; o escravo Epicteto; ou o imperador Marco Aurélio. Os estoicos fizeram um esforço honesto para erguer uma ponte entre a religião e a filosofia; sua doutrina manteve a sociedade antiga íntegra até que uma nova fé viesse animá-la. Após a Idade Média, influenciaria o cristianismo protestante, especialmente calvinistas e o puritanos, mas também os iluministas, e de todas as escolas antigas, é em nossos dias, mesmo quando no anonimato, a mais influente, seja qualificando manuais de autoajuda, seja instruindo técnicas psicoterapêuticas, e não há por que duvidar que seres humanos de todos os tipos, em todo o mundo, continuarão a buscar no estoicismo a disciplina e a inspiração para viver a vida digna de ser vivida, até o final dos tempos.
ConvidadosAldo Dinucci: professor de filosofia antiga da Universidade Federal do Espírito Santo.
Eduardo Wolf: professor de filosofia antiga da Universidade de Brasília.
Renata Cazarini: professora de letras clássicas da Universidade Federal Fluminense.
Referências- Manual de Estoicismo, de Aldo Dinucci.
- Estoicismo, Ceticismo e Ecletismo. História da Filosofia Grega e Romana Vol. VI (Storia dela Filosofia Greca e Romana), de Giovanni Reale.
- A Vida Estoica (The Stoic Life), de Tad Brennan.
- Estoicismo (Stoicism), de John Sellars.
- O Estoicismo (Stoicism), de George Stock.
- “O compromisso estoico”, em História da Civilização. Vol. II. A Vida na Grécia (The Story of Civilization), de Will Durant.
- “Stoicismo” e outros verbetes na Enciclopedia Filosofica Bompiani.
- “Stoicism” e outros verbetes na Stanford Encyclopedia of Philosophy.
- “Stoicism”, entrevista com Angie Hobbs, Jonathan Rée e David Sedley para o programa In Our Time da Radio BBC 4.
- “Stoic Ethics”, de Brad Inwood, em The Cambridge History of Hellenistic Philosophy, ed. por K. Algra, J. Barnes et. al.
- The Cambridge Companion to The Stoics, ed. Brad Inwood
- Handbook of Greek Philosophy: From Thales to the Stoics. Analysis and Fragments, de Nikolaos Bakalis.
- A New Stoicism, de Lawrence C. Becker
- The mutual influence of Christianity and the Stoic school, de James Henry Bryant.
- Stoic Studies, de A.A. Long.
- Stoicism: Traditions and Transformations de Steven Strange.
- The Stoics, Epicureans and Sceptics, de Oswald J. Reichel.
Ilustração: Self made man. Escultura de Bobbie Carlyle. Douglas County Library (Parker, Colorado, EUA). Foto (em preto e branco) de Joel A. Rogers (www.coastergallery.com).
O post Estoicismo apareceu primeiro em Estado da Arte.
A Conquista da América
mercredi 22 janvier 2025 • Duration 59:22
Há 100 milhões de anos, uma massa de terra hoje batizada América se desprendeu do supercontinente conhecido como Pangea. Há 40 mil anos, humanos pioneiros na Sibéria cruzaram uma ponte de terra até o Alasca. Depois disso, o continente desapareceu para o resto do mundo. Então, em 1492, um almirante genovês – valendo-se da bússola inventada na China, de conceitos matemáticos do Egito, um sistema numérico da Índia e cálculos astronômicos árabes redigidos com letras romanas – lançou-se no Atlântico à frente de três caravelas espanholas em busca de especiarias da Ásia, e fez a descoberta que seria o evento mais importante da história mundial no último milênio. Inadvertidamente, Colombo reuniu a humanidade e inaugurou a “aldeia global”.
Das colisões, convergências e misturas de três povos – indígenas, europeus e africanos – nasceu um Novo Mundo, que deu ao Velho Mundo frutos preciosos, a começar pelo sentido literal: você consegue imaginar a culinária universal sem o tomate, a batata, o milho ou o chocolate? Acrescente a esta cesta o tabaco e a borracha. Mas as dores do parto foram terríveis. Em 300 anos, 15 milhões de africanos foram arrancados de seu continente, na maior imigração forçada da história mundial. Os conquistadores trouxeram não só os dons culturais e materiais da Europa, África e Ásia, mas também seus germes e armas. Entre 80% a 90% dos nativos foram dizimados, a esmagadora maioria por pestes como sarampo, catapora, tifo e difteria, mas muitos pelo aço europeu. A conquista militar dos impérios e terras dos indígenas foi consumada por uns poucos milhares de europeus em algumas dezenas de anos, mas a conquista dos corações e mentes jamais seria completada. Os colonizadores criaram novas nações com os sistemas políticos, legais e linguísticos europeus, mas nas regiões onde grandes populações indígenas persistiram e grandes números de escravos foram importados emergiram sociedades ocidentais na superfície e não-ocidentais no fundo.
Onde estará a verdade entre a narrativa triunfalista dos europeus trazendo a civilização aos selvagens e a narrativa vitimista dos opressores perversos brutalizando oprimidos inocentes? Quais as grandes virtudes e vicissitudes das heranças coloniais para a América Latina e a América Anglo-saxã? E como as primeiras podem ser potencializadas e as segundas superadas para consumar a fusão dos três povos e integrar suas nações em um mundo genuinamente novo, justo e próspero?
ConvidadosJanice Theodoro: Professora de história da América da Universidade de São Paulo.
Leandro Karnal: Professor de história cultural da Universidade Estadual de Campinas.
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: Professor de história da América da Universidade Estadual de Campinas.
Referências- América Barroca: tema e variações, de Janice Theodoro.
- Teatro da Fé, de Leandro Karnal.
- As Américas na Primeira Modernidade (1492-1750), ed. por J. Cañizares-Esguerra, L.E.O. Fernandes e M.C.B. Martins.
- A Conquista da América: a questão do outro (La Conquête de l’Amérique), de Tzvetan Todorov.
- Sete Mitos da Conquista Espanhola (Seven myths of the Spanish Conquest), de Matthew Restall.
- A Era das Conquistas: América Espanhola, sécs. XVI e XVII, de R. Raminelli.
- The Cambridge History of Latin America. Colonial Latin America. Volumes I e II., ed. por L. Bethell.
- Conquest of Americas, de Marshall C. Eakin. Audiolivro para a série Great Courses.
- The Age of Reconnaissance. Discovery, Exploitation and Settlement. 1450-1650, de J.H. Parry.
- Atlantic History. Concept and Contours, de Bernard Bailyn.
- The Atlantic World: a History, de D.R. Egerton, A. Games, J.G. Landers et al.
- Discovery of the Americas. 1492-1800, de Tom Smith.
- Colonial America. A Very Short Introduction, de Alan Taylor.
- The Great Explorers. The European Discovery of America, de S.E. Morison.
- “Conquistas – História da Historiografia”, debate com S. Rinke, E.N. dos Santos e R. Raminelli.
- “A Conquista Espiritual: a Igreja Católica e os indígenas nas colônias americanas” e “A Conquista do México e suas interpretações“, episódios do Podcast Hora Americana sobre a história das Américas.
- “The Maya Civilization”, “The Aztecs”, “The Inca”, entrevistas para o programa In Our Time da Radio BBC 4.
- Hernán, série documental na Amazon Prime.
Ilustração: Chegada de Hernán Cortés em Vera Cruz. Detalhe do mural “A Epopeia do Povo Mexicano”, no Palácio Nacional, Cidade do México. De Diego Rivera, 1929-35. (Wikimedia Commons).
O post A Conquista da América apareceu primeiro em Estado da Arte.
Transtorno bipolar
mercredi 11 décembre 2024 • Duration 59:13
Imagine que você está tendo um dia bom. Um dia ótimo, na verdade! Cada ideia que vem à cabeça – e elas jorram! – é excitante. Cada fala é inspiradora. Pessoas medíocres te irritam. Mas você cativa todo mundo com sua vivacidade. Você se sente energético, desinibido, confiante, otimista. Nenhum erro é incorrigível, nenhum obstáculo é invencível. O futuro é luminoso. Você pode mover corações e mudar o mundo. Talvez seja um visionário, um reformador, um gênio, um profeta enviado por Deus. Quem sabe o próprio Deus! Ou, talvez, seja só um lunático… Não foi um dia, foram vários, muitos sem dormir. Você está numa cama de hospital, perdeu o emprego, está afundado em dívidas, os amigos estão afastados, a família, assustada.
Mas talvez esse tipo de euforia seja alheia e distante. Você está mais familiarizado com achaques de melancolia. Eles vêm sem nenhum motivo aparente, mas você sabe que têm razão de ser. Entre a apatia e a agitação, você tem poucas ambições e as poucas que tem sabe que são irrealizáveis. Você tem algum defeito inexplicável para as pessoas; é um estorvo para as mais próximas; se constrange em encontros sociais – melhor evitá-los. Nada acontece como deveria, e tudo por culpa sua. O passado é uma sucessão de erros irreversíveis e oportunidades desperdiçadas; o presente é doloroso; o futuro, opressivo. Sua vida é um fracasso, e sempre será. A angústia jamais passará, a menos que você corte o mal pela raiz. O único alívio é a morte.
Imagine agora oscilar perpetuamente entre os dois extremos, às vezes lançado de um ao outro no mesmo dia, às vezes até vivenciando ambos ao mesmo tempo. Como disse um maníaco-depressivo: “É ter a motivação de mudar o mundo num momento, e depois não ter a motivação para tomar banho”.
Estima-se que o transtorno bipolar afete de 1% até 4% das pessoas. A mania pode pôr a sua vida e a de outros em perigo. A depressão é a principal causa de incapacitação e suicídio. Por volta de 30% a 40% das pessoas com esse distúrbio se ferem a si mesmas, e a mesma proporção tem comportamentos autodestrutivos e problemas financeiros, sociais ou profissionais, agravados por estigmas e preconceitos.
Quais as causas do transtorno bipolar? Como tratá-lo? Quais as esperanças de uma cura?
ConvidadosBeny Lafer: professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo.
Flávio Kapczinski: professor de psiquiatria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Valentim Gentil Filho: professor de psiquiatria da Universidade de São Paulo.
Referências- Transtorno Bipolar: Teoria e Clínica, ed. por F. Kapczinski e J. Quevedo.
- Uma Mente Inquieta (An Unquiet Mind. A memoir of moods and madness) de Kay Redfield Jamison.
- Aprendendo a Viver com o Transtorno Bipolar, ed. por R.A. Moreno, D.H. Moreno et al., e Depressão e Transtorno Bipolar, de R.A. Moreno e D. Freitas.
- The Science & Treatment of Bipolar Disorder, podcast da Plataforma Huberman Lab.
- Concise Texbook of Clinical Psychiatry, ed. Por J.A. Grebb e C.S. Pataki.
- Shorter Oxford Texbook of Psychiatry, ed. por P. Harrison e P. Cowen.
- Clinician’s Guide to Bipolar Disorder. Integrating Pharmacology and Psychoterapy, de D.J. Miklowitz e M.J. Gitlin.
- Manic-Depressive Illness. Bipolar Disorders and Recurrent Depression, de F.K. Goodwin e K.R. Jamison.
- The Bipolar Disorder Survival Guide, de D.J. Miklowitz.
- 100 Questions and Answers about Bipolar (Manic-Depressive) Disorder, de A.T. Albrecht e C. Herrick.
- Cognitive-Behavioral Therapy for Bipolar Disorder, de M.R. Basco e A.J. Rush.
- Being Bipolar. Living with manic-depressive disorder, de C.M.C Carballo.
Ilustração: Máscaras de comédia e tragédia (Fonte: OnBlogStage)
O post Transtorno bipolar apareceu primeiro em Estado da Arte.
Goethe
mercredi 20 novembre 2024 • Duration 59:27
Você já imaginou como seria viver a vida de um grande artista? E de um grande estadista ou um grande pensador? E que tal tudo isso numa única vida? O ideal do “homem universal” foi consagrado no Renascimento, mas é plausivelmente tão antigo quanto a humanidade. É curioso, contudo, que dentre todos os bilhões e bilhões de seres humanos que já existiram haja tão raros candidatos a este título. Platão foi o patriarca dos filósofos e um escritor de talento, mas um político frustrado que expulsou os poetas de sua República ideal. Pascal, um grande cientista, filósofo e teólogo, mas demasiado atormentado e recluso. Mesmo o ícone Leonardo da Vinci foi um pintor extraordinário, mas produziu pouco nas outras artes. Suas invenções são sonhos irrealizáveis e não deixou nada digno de nota na filosofia.
Johann Wolfgang von Goethe também tinha suas limitações. Ele desconfiava das abstrações da filosofia. Foi administrador público – mas de um ducado menor. Um cientista dedicado – mas mais inspiracional que efetivo. Um pintor amador, um historiador diletante, um diplomata de ocasião. Mas de todos os “homens universais” foi o maior dos poetas. Primeiro escritor alemão de estatura inquestionável e o mais celebrado desde então, talvez nenhum outro em todos os tempos e lugares tenha o seu alcance e variedade. Ele produziu obras primas em praticamente todos os gêneros: poesia lírica, épica, dramática, erótica, romances, autobiografia, aforismos, ensaios, crônica, crítica literária e artística. Ele é para o Iluminismo o que Shakespeare foi para o Renascimento e Dante para a Idade Média. Seu Fausto, foi o maior poema longo desde a Divina Comédia e o Paraíso Perdido de Milton, e o drama mais emblemático da era moderna.
Sua vida coincidiu com o período mais excitante e criativo desde o Renascimento. Ele atravessou da Revolução Francesa às guerras napoleônicas até a eclosão da burguesia industrial e das democracias liberais. Usando sua experiência e criatividade, radiografou estas metamorfoses e fascinou os maiores artistas, estadistas e filósofos. “Eis um homem!” exclamou Napoleão aos seus oficiais. Para Marcel Proust, é “a maior inteligência que já existiu”. Para Stefan Zweig, “o mais sábio dos sábios”. “Minha ambição, meu tormento e minha alegria”, disse Nietzsche, era “viajar por toda a circunferência da alma moderna e ter sentado em todos os cantos … Verdadeiramente superar o pessimismo, e, como resultado, adquirir os olhos de Goethe – cheios de amor e boa vontade”. Em Goethe, o ideal do homem universal atingiu seu auge e seu fim. Mas ele deixa a cada um de nós uma provocação que reverberará pelos séculos: você pode viver a vida como uma obra de arte?
ConvidadosDaniel Martineschen: professor de língua e literatura alemã da Universidade Federal de Santa Catarina e tradutor do Divã ocidento-oriental de Goethe.
Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e presidente da Associação Goethe do Brasil.
Sylk Schneider: curador, tradutor, intérprete e autor de Viagem de Goethe ao Brasil.
Referências- A dupla noite das tílias: história e natureza no Fausto de Goethe, de Marcus Mazzari.
- Viagem de Goethe ao Brasil, de Sylk Schneider.
- Divã Ocidento-Oriental (West–östlicher Divan), introdução, tradução e notas por Daniel Martineschen.
- Ensaios Reunidos: Escritos sobre Goethe, de Walter Benjamin.
- Goethe e seu Tempo (Goethe und seine Zeit), de György Lukács.
- Deus e o Diabo no Fausto de Goethe, de Haroldo de Campos.
- Dinheiro e Magia. Uma crítica da economia moderna à luz do Fausto de Goethe (Geld und Magie), de Hans Christoph Binswanger.
- The Cambridge Companion to Goethe, ed. Por Lesley Sharpe.
- Goethe. Life as a work of art, de Rüdiger Safranski.
- Goethe: A Very Short Introduction, de Ritchie Robertson.
- De Leibnitz a Goethe, de Wilhelm Dilthey.
- Goethe, Kant and Hegel, de Walter Kaufmann.
- Reading Goethe. A critical introduction to the literary work, de M. Swales e E. Swales.
- Rousseau, Kant, Goethe, de Ernst Cassirer.
- Tres poetas filosofos. Lucrécio, Dante, Goethe, de George Santayana.
- Goethe. The Poet and the Age, de Nicholas Boyle.
- Goethe. His Life and Times, de Richard Friedenthal.
- Der Briefschreiber Goethe, de Albrecht Schöne.
- Michael Jaeger: Wanderers Verstummen, Goethes Schweigen, Fausts Tragödie. Oder: Die grosse Transformation der Welt, de Michael Jaeger.
- Mit einer Art von Wut – Goethe in der Revolution, de Gustav Seibt.
- Goethe-Lexikon, ed. por Gero von Wilpert.
- Goethes Faust. Erster und Zweiter Teil. Grundlagen. Werk. Wirkung, de Jochen Schmidt.
Ilustração: Goethe em Weimar, aos 30 anos. Por Georg Melchior Kraus (1778, Wikimedia Commons).
O post Goethe apareceu primeiro em Estado da Arte.









