Explore every episode of the podcast O Tal Podcast
| Title | Pub. Date | Duration | |
|---|---|---|---|
| Ana Paula Costa: “Migrar é também renascer de alguma forma, é ir-se reconstruindo. Tive o privilégio de construir boas relações interpessoais” | 06 Nov 2025 | 00:58:11 | |
Presidente da Casa do Brasil de Lisboa, Ana Paula Costa conhece como poucos as políticas, práticas e leis da imigração, tema incontornável neste episódio de O Tal Podcast. “Estamos a viver um atentado a direitos conquistados”, lamenta a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, obstinadamente alicerçada nos valores de Abril. “Todo o processo democrático foi de construir um mundo que fosse igualitário e livre para todas as pessoas”. Desde 2016 em Portugal, Ana Paula conta, nesta conversa, que veio sem planos para ficar, mas acabou rendida ao encanto de Coimbra. Quase uma década depois, a cientista política nota que os desafios da migração mudaram muito, decalcados do momento político que se vive no país. “Sempre existiu xenofobia, mas a animosidade de hoje, inclusive nas relações sociais interpessoais, não estava presente”, sublinha, lamentando a instrumentalização que tem sido feita das pessoas imigrantes, “usadas para expiar muito dos problemas sociais”. O retrocesso não desvia, para já, a rota de Ana Paula, que tem o sangue da resistência e resiliência a correr-lhe nas veias. “A minha avó ficou viúva com cinco filhas. Então, teve que espalhar as meninas pelo Brasil. Depois, reuniu de novo as filhas, comprou uma casa. Eu venho dessa família, que conseguiu se reerguer numa força feminina”. Natural de Cachoeiro de Itapemirim, berço de várias referências culturais brasileiras, como o “Rei” Roberto Carlos, a cientista política descreve a sua cidade como “muito artística, bastante influenciada pelos atores, e autores da literatura”. Foi lá que, ainda na infância, Ana Paula se tornou Paulinha, nome que molda a sua identidade, mas que já se habituou a ouvir apenas quando está de regresso à morada de nascimento. “Todo o mundo me chama de Ana Paula aqui em Portugal. Lembro que no início, quando ia para o Brasil, ficava meio confusa”. Apesar de se reconhecer mais como Paulinha, a cientista política vê nas variações de tratamento mais um reflexo natural dos movimentos transatlânticos. “Migrar é também renascer de alguma forma, é ir-se reconstruindo”. Nesse processo haverá partes que morrem? Quais? “A gente idealiza o processo migratório, o país, a relação que se vai construir. E quando entramos em contato com a realidade, há sempre essa morte do imaginário”. Ao mesmo tempo, “nascem mais coisas ou se afirmam mais coisas”, reconhece Ana Paula, refletindo sobre as mudanças que foi e vai encontrando. “Acho que migrar me fez ser muito mais brasileira”, diz, sem abdicar das suas particularidades. “Tenho um orgulho enorme de falar com esse sotaque brasileiro. É uma preservação de mim, nesse ambiente migratório”. Educada para ser tudo aquilo a que aspira, a presidente da Casa do Brasil de Lisboa não hesita na direção. “O sentido das coisas é coletivo, porque sozinho a gente não consegue fazer nada, não há caminho possível”. Firme na caminhada, Ana Paula Costa partilha, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, alguns pesos emocionais que se carrega na bagagem da imigração, sem nunca descurar o compromisso cívico. “Quero ficar em Portugal, mas o país precisa de mudanças, e eu quero fazer parte delas, com os portugueses que trabalham para construir um país melhor”. Ouça aqui o episódio completo. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND - Ana Marta Faial | 04 Nov 2025 | 00:01:16 | |
Sem tabus, a antiga modelo partilha a violência que sofreu na última relação, tão abusiva que chegou a temer pela vida. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Israel Campos: “Termos a possibilidade de chegar a certos lugares também é consequência direta dos nossos privilégios” | 02 Oct 2025 | 01:02:03 | |
Batizado à letra do nome de um dos estados que, nos últimos tempos, mais tem mobilizado protestos a nível global, o convidado deste episódio d’ O Tal Podcast, começa por partilhar o peso que cabe na sua identificação. “Não tem sido fácil carregar o nome Israel. Em Inglaterra, já me cancelaram viagens de Uber. Entrei no carro, e disseram: não te vamos levar por causa do nome. O clima é de tensão alta”, conta, amenizando, contudo, o “mal menor” que lhe coube em sorte. “Somos privilegiados, estamos numa parte do mundo em que podemos acordar, fazer a nossa vida, ir ao parque, trabalhar, brincar com os nossos. Mas o que devia ser tão comum e universal, não é”. Desde a infância atento ao que acontece ao seu redor, Israel Campos recorda, nesta conversa, como o ambiente familiar o preparou para ler, questionar e escrever sobre a atualidade. “Cresci em Luanda, ao lado de muitos ‘mais velhos’, no seio de jornalistas, a ouvir conversas sobre o estado do país e a política”. Filho de Graça Campos, referência incontornável do jornalismo em Angola, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso reflete sobre o acesso precoce a um manancial de conhecimentos. “Em casa já havia uma biblioteca, que era do meu pai e, portanto, sempre fui muito incentivado a ler. No contexto angolano é um grande privilégio”. Hoje com 25 anos, e várias distinções e prémios jornalísticos, académicos e literários, Israel faz questão de transformar as oportunidades e aprendizagens em vias de construção coletiva, talento que levou o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a convidá-lo a integrar um grupo de jovens que reflete sobre o futuro de Portugal. “A noção de serviço público passou a ser um grande elemento na minha vida profissional e pessoal”, sublinha, recuando à experiência precoce como locutor de rádio, entretanto amadurecida na universidade e numa carreira em jornalismo. Tudo começou aos 12 anos, revela o também escritor, de volta ao momento que lhe abriu as portas da Rádio Nacional de Angola (RNA). “Fui convidado para ir ao programa infantil Kaluanda Pió, falar do meu interesse pela escrita e pintura. O produtor gostou muito da minha desenvoltura e convidou-me para ir voltando”. O primeiro contrato não tardou – “Tive que ir com a minha mãe assinar, porque era menor de idade” –, e marca um antes e depois nesta história. “A experiência na rádio foi muito importante para a minha formação pessoal e profissional”, nota Israel, que, a partir do rigor dos horários – “eram programas em direto, e em direto não há atrasos” –, aguçou o sentido de responsabilidade e compromisso cívico. “Hoje trabalho mais como freelancer, e estou mais dedicado a questões académicas, mas o serviço público continua a pautar a minha atuação: penso em que medida posso utilizar o privilégio que tenho, para servir de alguma maneira”. Entretanto desvinculado da RNA, na sequência de um episódio de censura, Israel Campos comenta, neste episódio, o estado do jornalismo e da política em Angola, inspirações para a tese de doutoramento que ganha forma a partir de Inglaterra. Muito mais do que um destino de estudos superiores, uma espécie de refundação de identidade. Saiba de que forma, na conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. Para ouvir aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Kwenda Lima | 30 Sep 2025 | 00:01:31 | |
Que memórias conseguimos guardar para além daquelas que exibimos no telemóvel? Temos medo de amar? Onde está a força de nos vulnerabilizarmos? E Deus? Onde o podemos encontrar? Podem as mulheres não querer ser mulheres? Neste episódio, Kwenda Lima questiona a sabedoria. Do que somos e podemos ser. https://www.otalpodcast.com/p/kwenda-lima See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Vânia Andrade: “Ser vegana trouxe-me muitas coisas. É um descanso. Sinto que o meu corpo está menos propício a ficar doente” | 25 Sep 2025 | 00:55:35 | |
De microfone na mão, aos pés da escadaria da Assembleia da República, Vânia Andrade projetou a voz em defesa dos direitos das trabalhadoras da limpeza. O repto, lançado a 25 de fevereiro de 2023, marcou a primeira manifestação do movimento Vida Justa, e colocou no centro das atenções reivindicações habitualmente classificadas de periféricas. “Já me disseram: tu foste das primeiras mulheres a assumir, com a idade que tens, que trabalhavas nas limpezas”, conta Vânia, neste episódio de O Tal Podcast. Mais de dois anos depois dessa intervenção diante do Parlamento, a poetisa e performer sublinha a importância dos modelos de referência para a definição das nossas escolhas. “Acredito muito que tudo o que vamos fazer tem muito a ver com quem está à nossa volta. Há propósitos que seguimos quando somos impulsionados”. Da mesma forma que hoje outras mulheres olham para ela como uma inspiração, Vânia encontra sustentação nas suas raízes femininas. “As mulheres que me criaram dizem-me que sou inteligente, em silêncio, e isso é maravilhoso. São as que mais acreditam em mim”. Nascida em Portugal, com ascendência cabo-verdiana, ‘Puma’, como também é conhecida, expande a força construída no seio familiar a teias de transformação coletiva, onde se inclui o grupo “Mulheres Negras Escurecidas”. “Surge muito da minha vontade de estar e partilhar coisas com outras mulheres”, explica a ativista antirracista, destacando a necessidade de se proteger de espaços de opressão. “Tenho feito questão de estar em lugares onde sou acolhida, onde não sou vista como agressiva, como aquela que fala muito alto, que não quer ter amigos, que é muito antipática”. O autocuidado estende-se à intervenção no espaço público, que, cada vez mais, Vânia procura harmonizar com o descanso. “Aprendi a não me sentir mal quando não posso estar”. A busca de equilíbrio ganha novas urgências com a proximidade dos 40 anos. “Há um medo que aparece. Há várias coisas que ainda não estão feitas, que tens que fazer, e outras que não querias ter feito. Então, é um trajeto que começa a trazer algumas dúvidas e medos que, por vezes, começam a ser mais salientes. Tenho sentido isso”. Mais do que refletir sobre direções de vida, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode escutar aqui, Vânia Andrade pondera o efeito das escolhas que fazemos, nomeadamente alimentares. “Ser vegana trouxe-me muitas coisas. É um descanso. Sinto que o meu corpo está menos propício a ficar doente, que estou mais calma desde que deixei de comer carne”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Elisabete Moreira de Sá | 23 Sep 2025 | 00:01:28 | |
Que histórias contamos a nós próprios? Como nos vemos, a partir dos lugares de onde vimos? Na Quinta da Princesa, um dos bairros mal-afamados do concelho do Seixal, Elisabete Moreira de Sá começou por encolher perspetivas, encerrada numa vida de impossibilidades, até começar a alargar o olhar. Foi então que ‘saiu da ilha’ para ganhar o mundo, viagem que lhe tem permitido SER, independentemente do que possa parecer. https://www.otalpodcast.com/p/elisabete-moreira-de-sa See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Saliu Djau: “Tendo nascido e crescido na Guiné, vivi muito a cultura comunitária, de entreajuda e ligação com outras pessoas” | 18 Sep 2025 | 00:55:32 | |
Facilita encontros entre cidadãos e deputados à Assembleia da República, nos bastidores do Festival Política. Com o mesmo à-vontade, protagoniza campanhas publicitárias, vestindo a pele de modelo ocasional. Ao mesmo tempo, soma ligações a várias iniciativas de impacto social, compromisso cívico iniciado na Guiné-Bissau, onde nasceu e cresceu até à mudança para Portugal, já vivida na maioridade. Hoje com 30 anos, Saliu Djau percorre, neste episódio d’ O Tal Podcast, o tanto que já fez e faz, caminho academicamente demarcado por uma licenciatura em Relações Internacionais. “Nasci já muito velho, com os joelhos a doer”, brinca, situando na adolescência as primeiras experiências de cidadania ativa. “Em Bissau, na escola, criámos uma associação para jovens, fazíamos atividades culturais, organizávamos conferências e palestras, e tentávamos criar dinâmicas sociais e de partilha de conhecimento. Queríamos só fazer coisas e conviver com amigos, mas desenvolvemos interesses, e acabámos por evoluir como pessoas”. Muitos projetos de associativismo depois, onde sobressai a ligação ao Festival Política, Djau encontra no chão de partida as raízes que sustentam a sua busca por justiça social. “Somos fortemente influenciados pelo nosso espaço e circunstância. Somos o resultado do nosso tempo e do nosso espaço. Tendo nascido e crescido na Guiné, vivi muito a cultura comunitária, de entreajuda e de ligação com outras pessoas”. Atualmente ao serviço da Fundação Calouste Gulbenkian, Djau trabalha como gestor de projetos, especializando-se, entre outros domínios, na promoção de literacia mediática, via necessária de combate à desinformação. Antes disso, ajudou a lançar, dentro de uma instituição financeira, um grupo promotor da diversidade e inclusão, iniciativa que traz para a conversa o desaproveitamento do alcance da responsabilidade social. “Ainda é uma coisa muito frágil em Portugal”. Consciente das inúmeras desigualdades que comprometem a coesão social, e atento aos desafios que ameaçam a dignidade humana, Djau estende a sua intervenção às escolas. “Volto sempre muito feliz. Os miúdos, que nunca viram um ‘rasta man’ a dar aulas, ficam super contentes e curiosos”, assinala, reconhecendo o poder transformador da representatividade. “Quando dizia ‘eu trabalho num banco’, ficavam: ‘uau, a sério’? Porque provavelmente nunca viram uma pessoa parecida comigo a trabalhar num banco. Acho que isso acabou por ser uma referência”, nota o gestor de projetos, despido de heroicidades. “Há sempre retorno nas coisas que fazemos. O altruísmo nunca é 100% puro”, diz nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que pode seguir aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Lura | 16 Sep 2025 | 00:02:52 | |
Na vida de Lura, há um antes e depois da maternidade, que transporta força revolucionária. Mãe da pequena Nina, a cantora partilha, neste episódio, as maravilhas e os desafios dessa viagem, iniciada de forma profundamente consciente. “A minha filha é a prioridade, e depois organizo a vida em função dela”, conta, acrescentando que, por mais contraditório que possa parecer, essa é uma vivência que lhe trouxe mais liberdade. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Carla Adão: “A maternidade traz-nos grandes inseguranças. Se calhar, até as sinto mais agora do que quando os meus filhos eram pequenos, porque eles estão crescidos, quase emancipados, e eu questiono: ‘Será que fiz tudo certo?’” | 11 Sep 2025 | 00:47:13 | |
Subdiretora da RTP África, Carla Adão está no canal desde o arranque. Quase trinta anos depois, a jornalista destaca, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, as pontes que o projeto permitiu construir entre os países africanos de língua portuguesa, contributo que, defende, importa preservar, mas também reavaliar. “Quando a RTP África surgiu, os nossos países tinham meios de comunicação ainda muito incipientes, sobretudo a televisão. De repente, começámos a ligar, a fazer chegar as notícias de uns sítios aos outros. Agora já não tem esse peso, porque o mundo está de outra maneira”. Neste novo contexto, qual poderá e deverá ser o papel do projeto televisivo? “Devíamos, na comunidade afrodescendente, olhar mais para a RTP África como uma montra, difundir as imagens das pessoas que lá vão e que falam nos nossos programas, sobre todos os assuntos, nomeadamente política”, assinala, reconhecendo a importância de se diversificar o naipe de presenças na esfera mediática. “Como é que acabámos de ter umas eleições em Portugal e não há nenhum comentador negro, quando uma das questões que esteve em cima da mesa foi a imigração? As televisões continuam sem ter esse espaço, que eu acho que a RTP África tem e deve abrir ainda mais”. Neste episódio d’ O Tal Podcast, Carla Adão revela como a sua trajetória profissional a ajudou a perceber o impacto dessa pluralidade. “Quando chego a subdiretora da RTP África, começo a ver as reações [da comunidade afrodescendente], a alegria de muitas pessoas por eu estar nesse cargo, porque sentiam: é uma de nós, alguém que nos representa. Veio por aí o reconhecimento, e o meu autorreconhecimento”. Até esse momento, a jornalista conta que estava apenas a seguir o seu percurso, dentro de uma linha normal de progressão, sem consciência do significado coletivo das suas conquistas. Agora com uma nova consciência, a subdiretora da RTP África assume o compromisso de continuar a desbravar caminhos. “Tenho sonhado em dar e criar espaço para outras pessoas, em dar voz a histórias e pessoas que ainda não têm voz, em dar a conhecer histórias que estão esquecidas”, aponta, cumprindo os planos que a acompanham desde a infância. “Aos 9 anos disse à minha mãe que ia ser jornalista. E por volta dos 11, 12 anos, comecei a fazer um jornal no meu prédio, com uma máquina de escrever. Fazia inclusive os tracejados das palavras cruzadas que via noutros jornais”. A vocação, precocemente identificada, permitiu recuperar ligações africanas quebradas na infância com a saída de Angola para Portugal. “Quando fui à Guiné pela primeira vez, senti o chão, senti: ‘estou em casa’. Criei uma relação muito próxima com o país”. Esta é uma das experiências revisitadas neste episódio, onde Carla Adão partilha o reencontro emocionante com uma irmã perdida durante a guerra em Angola, bem como os desafios de ser mãe. “A maternidade traz-nos grandes inseguranças. Se calhar, até as sinto mais agora do que quando os meus filhos eram pequenos, porque eles estão crescidos, quase emancipados, e eu questiono: ‘Será que fiz tudo certo?’” Ouça aqui a conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Victor Hugo Mendes | 09 Sep 2025 | 00:01:24 | |
Pai de três, Victor Hugo Mendes (VHM) poderia muito bem fechar as contas da sua paternidade numa dezena de descendentes. Escrito de outro modo: gostaria de ter 10 filhos. O número impressiona, em especial numa Europa com algumas das mais baixas taxas de fertilidade do mundo, porém VHM não se deixa intimidar, assumindo valores ancestrais africanos na relação com a ascendência e descendência. https://www.otalpodcast.com/p/victor-hugo-mendes See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Blessing Lumueno: “O grande marco é José Mourinho. Os treinadores desenvolveram-se muito a partir daí. O problema é que depois a própria máquina começa a asfixiá-los” | 04 Sep 2025 | 00:55:54 | |
Num autorretrato que cabe em três palavras, Blessing Lumueno apresenta-se: “Fanático pela liberdade”. É assim que se vê, na relação com os outros, o mundo, e com ele próprio, revela neste episódio d’ O Tal Podcast, gravado antes de rumar para o Kuwait, como treinador-adjunto do Al-Arabi. Tema incontornável na história de Blessing, o futebol ocupa um lugar tão central na sua vida, que não hesita em declarar que estão unidos em matrimónio. Com uma visão de jogo aprimorada nos relvados, entre construções de equipas técnicas, o convidado desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso também tem partilhado táticas como comentador desportivo, somando intervenções na TSF, Canal 11 e RTP, e publicações no Expresso, além da autoria do blogue “Posse de Bola”. É com esta experiência que aguça a sua leitura crítica, além das quatro linhas. “Não há muito investimento em Portugal para os clubes. Há poucas oportunidades para os treinadores se profissionalizarem”, nota, antecipando resultados nada promissores, a partir de um foco cego no rendimento. “O mercado é muito violento, e os treinadores, fruto disso, vão procurando atalhos, e quando o fazem estão a tirar possibilidades aos jogadores de terem um tipo de evolução diferente”. A “máquina”, conforme descreve, calibrou-se com outro engenho a partir de José Mourinho, mas parece viciada numa programação que promove a medianidade em detrimento da excecionalidade. “Estamos a perder os melhores, em prol de termos de jogadores, jogadoras assim-assim, que fazem o trabalho ‘benzito’”, alerta, sublinhando a importância do tempo para afinações. “Se ao primeiro erro és massacrado, e ao segundo erro és espezinhado, acabou. A partir daí, a reação mais normal, quando queres tentar qualquer coisa que ainda não tentaste, é retraíres-te e nem sequer o fazeres”. O preço a pagar, aponta, é o défice de inovação, que, prenuncia, vai implicar uma crise de talentos nas próximas gerações, e não apenas de futebolistas. A análise, conta Blessing, influencia o seu comportamento não apenas nos clubes, mas também em casa. “Tenho uma ideia de parentalidade muito aberta, de deixar experimentar, de não ser excessivamente interventivo no processo de crescimento da minha filha”, diz, sem nunca esquecer as suas próprias aprendizagens. “Cresci com mulheres. Deu para perceber as dificuldades que qualquer uma tem para conseguir um cargo decente, fazer valer aquilo que são as suas melhores qualidades, e nunca ser olhada de lado por usar o cabelo mais comprido ou andar de vestido e, sobretudo, nunca ser deixada para trás por causa da maternidade ou por ser mais verdadeira com as emoções do que os homens, que conseguem esconder e manipular de outra forma”. A proximidade feminina permitiu-lhe também observar a sua resiliência. “Vejo nas mulheres a capacidade para, dentro de situações horrorosas, dramáticas, de crise, continuarem a lutar. Acho isso ímpar”, destaca, sublinhando que foi a partir de muitos sacríficos da mãe e das tias que conseguiu dar “um salto geracional”. Vamos perceber de que forma nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, em que se revisitam feridas do colonialismo, desigualdades raciais, e desafios sociais. Sem nunca perder de vista as lições da vida. “Aprendi, pelo rumo da vida da minha mãe e das minhas tias, que podem ser solteiras e felizes. Não necessitam um parceiro de vida disso para isso, podem fazer uma vida perfeitamente plena sem estarem ligadas, do ponto de vista afetivo, a um homem ou a uma mulher” Ouça a conversa n’ O Tal Podcast. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Henda Vieira Lopes | 02 Sep 2025 | 00:01:56 | |
Henda Vieira Lopes, psicólogo e diretor do Espaço Yanda, acumula mais de 20 anos de experiência na promoção de competências, incluindo uma forte intervenção comunitária. Com uma abordagem afrocentrada, integra práticas ancestrais africanas na psicologia clínica. Neste episódio, Henda Vieira Lopes aponta caminhos que nos ajudam a separar o homem do masculino, e a construir uma masculinidade positiva e inclusiva. https://www.otalpodcast.com/p/henda-vieira-lopes See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Ana Paula Tavares: “Comecei a seduzir pela palavra. Era eu que fazia as redações dos colegas. Era uma forma de exercer poder” | 30 Oct 2025 | 00:56:10 | |
Hoje celebramos a vida e a obra de Ana Paula Tavares, que neste 30 de Outubro festeja o 73º aniversário, depois de no passado dia 8 ter sido aclamada vencedora da 37.ª edição do prestigiado Prémio Camões. O reconhecimento literário da poeta e historiadora dá o mote para esta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, iniciada com uma proposta de releitura da obra “Ritos de Passagem”. Quatro décadas depois da publicação, que marcou a sua estreia editorial, será que Ana Paula Tavares encontra novos significados nas palavras que escreveu lá atrás? “Ultimamente, não só por causa do prémio e das entrevistas que provoca, senti muita necessidade de voltar aos princípios, a uma linguagem que escolhi, e que tinha, digamos, alguns frutos do bioma angolano, das coisas que são angolanas, e das coisas que chegaram ao país, entre os muitos trânsitos, e os milhares de migrantes que foram fazendo aquela entidade histórica, social, psicológica e linguística que é a Angola dos nossos dias”. Nesse exercício de regresso ao início, a poeta nota que ainda há muito “por nomear, por tratar poeticamente”, observação que pede “um novo ciclo de frutos, para ser outra vez transformado em objeto do poema”. Talvez resulte daí uma revisita aos “Ritos de Passagem”, antecipa Ana Paula, que neste episódio d’ O Tal Podcast partilha outros revisitares da sua história, por muitos ainda desconhecida. “É muito engraçada a cara de espanto com que as minha vizinhas agora me olham. Dizem: vi uma pessoa tão parecida consigo na televisão. E eu não desfaço este pequeno equívoco. De resto, a vida continua normal”, garante, recuando aos tempos de mobilização anticolonial. “Por volta dos 18, 19 anos, sou surpreendida com a grande tarefa de tentar fazer alguma coisa por Angola. Não digo que logo nessa altura tivesse consciência de me inscrever na luta armada, ou tomasse posições políticas fortes, mas, sobretudo a partir da orientação de pessoas mais velhas, houve maneira de tentar participar e sobretudo alfabetizar adultos” O compromisso para a libertação nacional sucedeu a uma rutura com a igreja – “aí por volta dos 16, 17 anos” –, experiência que a poeta recorda pela ligação ao campismo missionário, projeto “absolutamente colonial”, inserido “dentro daquelas normas de evangelizar os indígenas”. “Éramos um grupo de meninas, e íamos para o campo, com senhoras mais velhas, ensinar as mulheres, por exemplo, a dar banho aos bebés, a vesti-los, a fazer pequenas coisinhas como se não tivessem um ensinamento de séculos de como tratar dos seus filhos”, descreve a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, realçando a aprendizagem. “Forçou-me a olhar o outro, com outro olhar. Foi aí que comecei a interrogar: afinal, de que lado estou?” Além dos questionamentos individuais e das interpelações coletivas, Ana Paula Tavares percorre, neste episódio, leituras mais e menos proibidas; revela uma profunda conexão à filha e ao neto; surpreende pela veia musical; conta como fez da palavra instrumento de poder, e partilha uma ‘encomenda familiar’ que continua por desembrulhar. “A minha avó Felicidade disse-me muitas vezes: foste a primeira pessoa da família que estudou, portanto tens a obrigação de contar a minha história, a da outra tua avó, a da tua mãe e a tua. E até te vou dar um título: “As Filhas da Pouca Sorte”. Nunca fui capaz de escrever”. Saiba porquê, ouvindo o episódio completo aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Verónica Pereira: “A verdade liberta, não me causa medo. Se não a contar, não tenho paz” | 28 Aug 2025 | 00:51:04 | |
Tinha 36 anos quando se tornou a primeira e, até agora, única diretora da edição impressa do “Novo Jornal”, em Angola. Cerca de uma década depois, Verónica Pereira revisita, neste episódio d' O Tal Podcast, as marcas que acumulou com essa experiência. “Vi-me, durante muito tempo a carregar um peso muito maior do que eu, e uma exigência, como mulher, de ter que estar sempre com determinada postura, de acordo com aquilo que achavam que deveria estar, ser e fazer”. Além das pressões constantes a nível profissional – “não tinha noção do que era exercer um cargo de direção [de um jornal] num país como Angola, num contexto político terrível” –, Verónica relata o peso agravado das convenções sociais que encontrou. “Desde o início que ouço a mesma crítica: tu trabalhas demais, tens que olhar mais para outras áreas. Por exemplo: casa e família”, conta, sublinhando como as expetativas de género, e os resquícios coloniais dificultaram – e ainda dificultam – o processo de adaptação à sociedade angolana. A viver em Luanda há 16 anos, a hoje coordenadora de comunicação do Mosaiko - Instituto para a Cidadania, admite que ainda não se sente “devidamente integrada”, ainda que profissionalmente valorizada. “Decidi ir para Angola pela oportunidade de emprego, e possibilidade de crescer e fazer carreira, que aqui não teria”. Depois de um sólido percurso no mundo da comunicação social, que incluiu o lançamento do “Expansão” – o primeiro semanário de economia do país –, Verónica encontrou na área da defesa e promoção de Direitos Humanos um novo campo de especialização. “Era muito naïf, pensava que no jornalismo estaria a fazer aquilo que estava de acordo com os meus princípios, os meus valores. Quando percebi que não, saí”. Há sete anos no Mosaiko, a responsável de comunicação conhece agora uma Angola que vive longe das páginas de jornais, mas mais perto da pessoa que cresceu para ser. “[Nestas funções] sinto um encontro com aquilo que se calhar eu não sabia, mas estava dentro de mim desde muito criança”. Nascida em Portugal, filha de mãe angolana e pai cabo-verdiano, Verónica encontra na infância um manancial de lições de humanidade. “Vivia num bairro de lata, e ia para um colégio privado estudar. Já adulta, ponho-me a pensar: como é que era sair do bairro, encontrar o asfalto e atravessar aquilo tudo com a cabeça erguida?” Enquanto observa que “trabalhar direitos humanos com pessoas desumanizadas é muito mais difícil”, a convidada de Georgina Angélica e Paula Cardoso, afasta os estereótipos de insegurança associados aos chamados bairros de lata. “Em momento nenhum senti medo ou insegurança. Foi o lugar de pertença, em que me senti integrada, me deu um sentido de comunidade, e também uma cultura e ancestralidade”. A par das aprendizagens do passado e dos ensinamentos do presente, Verónica traz para a conversa os prenúncios do futuro. “Estou a aprender a aceitar a mudança que tem que ver com a idade”, diz, livre de subterfúgios. “A verdade liberta, não me causa medo. Se não a contar, não tenho paz”, revela nesta conversa d' O Tal Podcast. Para seguir aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Ana Sofia Martins | 26 Aug 2025 | 00:01:27 | |
Da projeção à notoriedade, Ana Sofia Martins traça distâncias. Quão longe fica uma realidade da outra? Que caminhos se atravessam entre os dois pontos? Aos 37 anos, com muitas perguntas e respostas ainda por encontrar, a atriz faz questão de mergulhar numa busca por si própria. Afinal, quando se assume precocemente a responsabilidade de cuidar dos outros, que tempo e espaço sobram para reconhecer e acolher as próprias necessidades? https://www.otalpodcast.com/p/ana-sofia-martins See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Milton Gulli: “O papel dos artistas é muito importante, porque a arte tem de questionar, criticar, apontar o dedo” | 21 Aug 2025 | 00:49:33 | |
Guarda memórias de tempestades de areia, vividas na primeira infância, a partir de uma mudança familiar profissionalmente determinada. “O meu pai, que é engenheiro civil, conseguiu trabalho na Arábia Saudita. Houve uma altura em que vivemos no deserto, porque estavam a construir uma autoestrada”, conta Milton Gulli, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. Filho de moçambicanos que se estabeleceram em Portugal depois do 25 de Abril, o músico adianta que perante a falta de oportunidades em terras lusas, a família acabou por se deslocar novamente, dinâmica que se tornou habitual. “Os meus pais sempre viajaram muito, e levaram-nos a muitos sítios. Então, temos desde pequenos uma visão alargada do mundo”, revela Milton, que conjuga as recordações no plural, por serem indissociáveis das duas irmãs. Foi também em família que, em 2006, Moçambique se tornou destino de férias. “Ficámos lá um mês, e para mim e as minhas irmãs foi um bocado um choque cultural porque tínhamos uma ideia um bocado romantizada do país”. A desconstrução da imagem criada em Portugal passou por um reconhecimento do território: “Eu sempre achei que em Moçambique se falava português no país todo. Não é verdade. Fala-se português nas cidades, mas fora das cidades pouca gente fala”. Mais do que desfazer mitos linguísticos, Milton assinala os perigos de uma ilusão lusófona. “Acho que muito português acaba por ter a ideia de que quando vai para os PALOP a cultura, os costumes e a maneira de estar são iguais”, nota o músico, perentório na desagregação: “Não são”. Entre as narrativas sobre Moçambique e a realidade, o músico quebrou fronteiras – “Hoje vejo África de outra maneira, é um continente riquíssimo, com muito potencial humano” –, e traçou novas rotas: cerca de cinco anos depois da viagem familiar, trocou Lisboa por Maputo. “Regressei muito diferente. Estive lá quase dez anos, e sinto que cresci bastante. Fiquei mais atento, mais cuidadoso, e com mais paciência”. As vivências ganham expressão no primeiro álbum a solo de Milton, intitulado “Quotidiano”. Lançado em 2022, ano em celebrou 25 anos de carreira, o disco é descrito pelo músico como um retrato do dia-a-dia na chamada Pérola do Índico, e uma homenagem ao seu povo. “Sempre toquei com várias bandas e vários artistas. Nunca tinha pensado fazer um projeto a solo, mas quando cheguei a Moçambique comecei a compor várias coisas que não encaixavam em nenhum dos projetos que tinha”. Com um currículo artístico que inclui referências como os Philarmonic Weed e Cool Hipnoise, Milton celebra, no próximo dia 4 de setembro, no Lux Frágil, em Lisboa, os 20 anos dos Cacique’ 97. A história desta banda, e o despertar musical vivido na adolescência, na Ilha da Madeira, são recordados neste episódio d’ O Tal Podcast, no qual o artista, partilha como o encontro com Azagaia, ícone moçambicano falecido em 2023, continua a marcar a sua trajetória. “O papel dos artistas é muito importante, porque a arte tem de questionar, criticar, apontar o dedo”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Isabél Zuaa | 19 Aug 2025 | 00:01:44 | |
No passado, as mulheres negras tiveram de pegar em armas para defender os territórios e corpos das invasões coloniais. No presente, um dos maiores combates que travam é no campo afetivo, procurando viver para além da condição de guerreiras. A multifacetada artista Isabél Zuaa partilha como tem feito esse caminho de emancipação emocional, a partir de um lugar de amor-próprio e de autocuidado. Lembrando que uma mulher negra feliz é um ato revolucionário, Isabel também reflete connosco sobre a potência política do amor vivido entre pessoas negras. https://www.otalpodcast.com/p/isabel-zuaa See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Iris de Brito: “Fiz a audição para o filme Evita com um dos bailarinos principais do Michael Jackson. Fiquei, saltei, estava toda contente” | 14 Aug 2025 | 00:55:43 | |
Diante da pergunta “Que idade tinhas quando a dança entrou na tua vida?”, Iris de Brito revê a resposta de sempre. Habituada a apontar como referência a iniciação no balé, vivida quando tinha cerca de 8 anos, hoje a coreógrafa partilha outro entendimento. “A dança e o movimento entraram em mim quando comecei a andar”, realça no início deste episódio d’ O Tal Podcast, já livre das velhas programações. “Esta sociedade do Norte Global incorporou a ideia de que tudo da mente tem uma hierarquia maior, e que o conhecimento do corpo não tem tanta importância. Mas tem”, sublinha, lembrando a necessidade de soltar as próprias amarras: “Cresci a pensar que o que tenho na cabeça e a universidade é que é importante”. A crença, observa Iris, tem sido desconstruída, permitindo reconhecer que “o movimento é uma das tecnologias ancestrais – africanas e não africanas – que mais ajuda a tudo”. Não surpreende por isso que o pessoal da dança “diga sempre na brincadeira: se os governantes dançassem mais estaríamos um bocadinho melhor”. Aliás, nota a também professora, há um provérbio, “talvez nativo-americano”, que reforça essa associação entre movimento e adoecimento. Segundo o ditado, “quando alguém chega a um xamã e diz ‘estou doente’, ele pergunta: quando é que você parou de dançar, de cantar, de contar ou de ler histórias?”. Iris nunca marcou passo, e a determinada altura Portugal tornou-se pequeno. “Trabalhei no teatro de revista, fiz o Crime da Pensão Estrelinha na televisão com o Herman José, e foi muito engraçado, mas senti que não conseguiria ir mais longe. Por isso quis sair para Nova Iorque”. Mais do que um plano, Iris alimentava o sonho de integrar a companhia Alvin Ailey, mas não tinha meios nem conhecia ninguém na ‘Grande Maçã’. Por isso Londres, onde tinha ‘rede’, impôs-se como destino. “Aí tive a oportunidade de fazer formação com um mestre incrível, William Luther, um dos primeiros bailarinos da companhia de Alvin Ailey”, diz a coreógrafa, assinalando como o ciclo acabou por se completar. Foi também na capital britânica que fez um curso em Teatro Musical e o mestrado em Pedagogia das Danças Afrolatinas, além de ter trabalhado com artistas como Jay-Z, Enrique Iglesias ou Kylie Minogue. Pelo caminho, enfrentou vários castings, incluindo para o filme Evita e o musical Chicago, experiências que revisita neste episódio. “Fiz a audição para o Evita com um dos bailarinos principais do Michael Jackson, o Vincent Paterson. Fiquei, saltei, estava toda contente, e ele deu-me os parabéns e um toque: da próxima vez, muda de botas. Elas estavam a cair aos pedaços”. O episódio é recordado não apenas por ter sido selecionado, mas também pela lição, que Iris faz questão de partilhar: “Acreditem em vocês porque um bom coreógrafo, um bom diretor, consegue ver mesmo através da vossa imagem”. Com três décadas de profissão, a coreógrafa partilha igualmente um alerta: “Infelizmente, não existe nos países PALOP uma proteção da herança imaterial, que inclua o movimento, a dança. Estamos completamente desprotegidos. Então, nos festivais querem mudar a Kizomba e dizer que é evolução”. Longe disso, Iris de Brito vê nessas jogadas mercantilização e desvirtuação, reflexões para acompanhar na conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND: Dino D' Santiago | 12 Aug 2025 | 00:01:30 | |
Entre o desejo de ser pai, e o medo de falhar nesse papel, Dino d’ Santiago encontrou na terapia um lugar de entendimento. De si próprio e da sua família, que deixou para trás alguns pesos, onde se inclui a história de uma morte trágica. “Queria agradar para me sentir incluído, desagradando-me constantemente”, admite o músico, que, nesta conversa, partilha o seu profundo processo de desconstrução…e de libertação pelo amor. Hoje, em vez de forçar uma existência de “super-humano”, o músico reivindica “apenas” um espaço para ser humano.
-- See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Saint Caboclo: “A música não é suposto ser elitista, mas para todos. As pistas de dança foram criadas de uma certa forma de rebelião” | 07 Aug 2025 | 00:57:04 | |
Tatuou na mão direita “Saint”, identidade construída a partir de uma relação amorosa. “Namorava com uma pessoa que disse que eu tenho essa coisa de achar que sou um santo, que estou sempre certo. Então virou uma piada para mim”, introduz Saint, antes de completar a apresentação: “Caboclo é como a minha mãe me chamava quando eu era mais novo”. O tratamento materno, explica Saint Caboclo, neste episódio d’ O Tal Podcast, tem raízes ancestrais e culturais. “A minha família tem mistura com índios, e de onde nós somos, de Marabá, no Pará, tem essa coisa de chamar as crianças que têm mistura com índios de caboclo. Então foi assim que eu cresci”. Desde a adolescência a viver em Portugal, o paranaense conta que foi por cá que se despediu completamente do Eudes, nome de batismo que repete a identidade paterna. “Foi como um ultimato: coloquei que o meu nome ia ser Saint e pronto – é Saint”. A determinação reflete-se nessa tatuagem: “Está na mão com que eu cumprimento as pessoas, escrevo, seguro o microfone, com que eu faço tudo. É a minha identidade, a minha pessoa”. Além de marca pessoal, Saint Caboclo tornou-se também sinónimo de revolução nas noites lisboetas. Criador das festas Dengo, o DJ, constrói, há quatro anos, uma comunidade que agrega, juntando pessoas de contextos, identidades e pertenças distintas. A proposta cultural inclui as chamadas “listas trans”, que também está a tentar introduzir em Espanha. O conceito é simples: quebrar barreiras no acesso. “As pessoas que participam nas festas Dengo sabem que o bilhete está a ser convertido para ajudar aquela amiga ou amigo trans”, aponta Saint, atento às resistências: “Claro que há pessoas que vão falar: mas por que eu tenho de pagar bilhete e essa pessoa não?”. Sem hesitar na resposta, o DJ atira: “Talvez não entendam o conceito de comunidade, e esse evento não seja para elas”. Firme na visão de que “a música não é suposto ser elitista”, mas sim “para todos”, o brasileiro lembra que “as pistas de dança foram criadas de uma certa forma de rebelião”. Hoje, porém, sofrem de uma certa ‘contaminação’, alerta o artista: “As pessoas não se divertem tanto na discoteca, porque todo o mundo está com medo de ser gravado a fazer algo que não devia”. O receio, nota Saint, vem da quantidade de câmaras que se posicionam nas pistas de danças em busca de um momento viral na internet. Apesar de garantir que não se opõe à presença de telemóveis nas festas, o DJ vê neles uma barreira à liberdade. “Faço parte dessa geração que publica tudo [nas redes sociais], então eu sei que sou parte do problema”, diz, revelando, contudo, que também usa o telemóvel como uma espécie de escudo. “Se estou a andar na rua, em volta de estranhos, estar com o meu telefone na cara vai-me deixar menos ansioso”. A aprender a viver com o diagnóstico de ansiedade, Saint Caboclo assinala, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, que a terapia tem sido um apoio importante. Acompanhe aqui 'O Tal Podcast'. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Jimmy P: “Fui-me tornando mais sensível, e tinha vergonha disso. Com a idade, percebi que não é uma coisa má, acho que é um superpoder” | 31 Jul 2025 | 00:55:48 | |
Entre a maldição e a bênção de uma noite que lhe poderia ter custado a vida, Jimmy P encontrou o impulso que faltava para se dedicar inteiramente à música. “Quando saí do hospital, montei o meu estúdio em casa. Estava praticamente de cama, mas com uma mão conseguia ir ao computador e gravar. Queria muito aquilo, e estava a sair-me da alma”, conta o artista neste episódio d’ O Tal Podcast. As memórias remontam a 2011, marcam o início de uma carreira bem-sucedida – “O meu primeiro som a ter sucesso foi depois disso” –,mas, antes desse salto criativo, recuam a história do artista a um passado de excessos. “Eu podia não estar vivo, ou não ter o braço”, sublinha, expondo as cicatrizes de uma série de cirurgias, vividas durante mais de dois meses de hospitalização. “Tinha acabado a faculdade há cerca de três anos, e fui trabalhar para uma empresa grande do têxtil. Foi-me atribuído um lugar de chefia, ganhava bem, viajava muito, e gostava verdadeiramente daquilo, mas não estava preparado para aquela maratona”. Além dos voos profissionais, demasiado altos naquela fase, Jimmy tinha embarcado numa relação abusiva, e, a determinada altura, o consumo de álcool e drogas tornou-se habitual. Por isso, ao acordar e se deparar com o ortopedista que o operou, a confusão ainda era total. “Eu não me lembrava de nada, e a minha primeira pergunta foi: é da polícia?”. A ligação médico-paciente evoluiu para a amizade e, hoje, o músico cuida não apenas das marcas que deixam visíveis cicatrizes na pele, mas também daquelas invisíveis, que criam feridas emocionais. “Ter tido alguns problemas de saúde mental permitiu desconstruir-me, e perceber certos comportamentos”, nota Jimmy, recém-regressado de uma paragem de um ano, e já consciente dos padrões que foi reproduzindo. “Durante muito tempo, era duro e muito exigente comigo, e se calhar elogiava pouco as minhas conquistas e as coisas boas que fazia. Hoje tenho uma relação muito mais saudável comigo”. O diagnóstico inclui mais autoconhecimento: “Fui-me tornando mais sensível, e tinha vergonha disso. Com a idade, percebi que não é uma coisa má, acho que é um superpoder”. Ao mesmo tempo, essa consciência é indissociável do entendimento com os pais. “A minha mãe saiu de casa para me ter, com 18 ou 19 anos. Foi um ato de coragem e de amor gigante, mas nem sempre consegui ver assim”, admite, sublinhando o apoio incondicional que sempre recebeu do pai, o ex-futebolista Jorge Plácido. “Estou a educar as minhas filhas, mas preciso de olhar muito para mim para conseguir ser um bom pai”. No processo de se reconciliar com a própria história e a dos pais, Jimmy defende a importância dessa autoanálise – “Nunca subi a um palco alcoolizado ou drogado, porque quero ter noção do que está a acontecer, quero desfrutar da experiência e quero vibrar na frequência certa” –, que recentemente se cruzou com a espiritualidade africana. “Durante anos ouvi dizer que era coisa do demónio, feitiçaria, magia negra e todas essas expressões”, nota, assumindo o compromisso de questionar o que aprendeu. “Tudo começou quando fui ao Senegal. Senti uma ligação muito forte, e a primeira coisa que fiz quando cheguei a Portugal foi um teste de ancestralidade, que revelou que 50% do meu ADN é daquela zona”. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Jimmy P revela ainda como constrói a sua sorte e resiliência: “Não foram as 10 músicas que tiveram sucesso que me tornaram o artista que sou. Foram as outras que ninguém ouviu”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Monica Lafayette: “Quando assinei contrato com a Nike, como Fashion Icon, mudei o jogo. Foi por causa do Cristiano Ronaldo que existiu esta campanha” | 24 Jul 2025 | 01:09:11 | |
Perdeu a conta ao número de celebridades com quem se cruzou em Londres, num circuito exclusivo, percorrido entre etiquetas de luxo. “Comecei como assistente do assistente do assistente, numa loja da Gucci, e ali entravam imensos artistas, tipo Pharrel Williams. E eu lembro-me que eu ia para a casa de banho a pensar: Isto é real?”. Mas foi em Portugal, a partir de uma campanha da Nike lançada por causa de Cristiano Ronaldo, que Monica Lafayette se tornou, ela própria, uma marca na arte de desfilar e criar estilos únicos. Apontada pelo gigante desportivo como ícone de moda, no âmbito de uma ação de apoio à presença portuguesa no Mundial de Futebol da África do Sul, a stylist conta, neste episódio d’ O Tal Podcast, o poder dessa convocatória. “Quando assinei contrato com a Nike, como Fashion Icon Ibérica, mudei o jogo”. À época recém-regressada a Lisboa, depois de uma temporada transformadora em Londres, Monica recorda que essa distinção ativou algumas resistências, entretanto ultrapassadas. “Na altura, foi um choque porque eu estava em Portugal há três anos, então houve muitos problemas. As pessoas achavam que eu estava aqui há pouco tempo, e recebi poucos parabéns de colegas”. Hoje com um percurso incontornável, que inclui a sua própria empresa, e também passou por Paris, a stylist sublinha, nesta conversa, como a sua trajetória se tem construído à margem de romantismos, e à prova de deslumbramentos. “Tive aquelas histórias que pensava que iam ser da novela: em que me apaixono, perco a virgindade e penso que vai ser para sempre. Mas não entrava no estereótipo da miúda-mulher-mãe, comecei a desconectar-me e terminei a relação. Acredito que até hoje ele não aceita isso. Então afastou-se de mim e do meu filho”. Mãe de Maximus, a empresária partilha com Georgina Angélica e Paula Cardoso algumas das feridas abertas a partir da maternidade e separação precoces. “Tive que começar a fazer-me à vida mais a sério. Na altura estava a estudar para a faculdade e tinha que ter um part-time - trabalhava na Springfield do Colombo a dobrar polos. Mas as pessoas olham para nós, e acham que saímos do helicóptero, já prontas, e com o cabelo a voar”. Aos 42 anos, e com um filho de 23, Monica depara-se hoje com outro tipo de desafios: “Agora que o meu filho é um homem, tenho tempo e digo: quem sou eu? Do que gosto?”. Os planos de vida, antecipa a stylist, passam pela sua Angola de nascimento, pertencimento e redireccionamento. “O Coréon Dú, filho do ex-Presidente da República de Angola, convidou-me para ser a figurinista e diretora criativa principal da novela Windeck. Na altura tinha zero ideia de quem ele era”. A experiência permitiu não apenas assumir novas responsabilidades, mas também fortalecer identidades. “De repente estás em Londres, em Paris, em Nova Iorque, e voltas a Luanda e dizes: eu sou daqui. E olhas para a tua família, para a tua comunidade e dizes: sou um bocado disto, um bocado daquilo”. Além do ambicionado regresso às raízes – “vou voltar a tentar viver em Luanda, ou a ter mais projetos lá” –, Monica revela o desejo de resgatar sonhos interrompidos. “Acredito no casamento, no amor, na união. Quero ter alguém, mas na minha frequência. Ou numa outra frequência, mas que acrescente, e que honre os lugares em que eu já estive, que não me veja como um troféu e não se assuste, porque as pessoas cada vez mais assustam-se com mulheres como nós”. Siga a conversa, na companhia de Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Mayra Andrade: “O que é significa ser africana no mundo? A primeira palavra que me vem é orgulho” | 17 Jul 2025 | 00:42:10 | |
Nasceu cantora há 40 anos, renasceu mãe em 2023, e, entre um e outro momento, nunca se desligou dos batimentos criativos. “Estive ativa até aos sete meses [de gravidez], de saltos no palco, e aos saltos”, recorda Mayra Andrade, mais de dois anos depois do nascimento da filha Dayo, nome grafado na língua africana yorubá, e que significa alegria. “Ela veio toda em música. Eu faço linhas melódicas esquisitas, semitonadas, a ver se ela reproduz, e ela consegue”, conta a artista neste episódio d’ O Tal Podcast, reconhecendo nos primeiros passos da filha a própria caminhada. “Começou a cantar ainda não tinha um ano”, nota Mayra, acrescentando que com essa idade também já expressava a veia musical. “Sempre fui uma criança muito espiritualizada. Eu sei o nome das energias que me acompanham, e eu invoco estas energias antes de pisar no palco, porque é muito importante que aquele espaço sagrado, que é o palco, e o dom que eu recebi, não seja em vão”. Alinhada com cada nota e ritmo – “Oro sempre muito para que cada expressão feita no palco chegue ao coração das pessoas” –, a artista diz da filha Dayo o que o seu pai, Carlos Andrade, também diz de si: “Nasceu cantora”. O olhar materno e maternal aguça-se à medida de um maior autoconhecimento e consciência da vida. “Acabo, muitas vezes, por não valorizar o poder que tenho. Só uma pessoa com um poder tão grande em si é que consegue, com dignidade e no seu silêncio, estar nos palcos do mundo a cantar, com uma bebé ao colo, a amamentar e a lidar com coisas que não deveria ter que lidar”. A versatilidade favorece “a sensação de estar num multitasking existencial constante”, nota Mayra, observando: é “como se estivesse a plantar uma floresta, a segurar um navio para não afundar, a semear não sei o quê, a voar, a enterrar-me”. Entre a terra, o mar e o ar, a artista cabo-verdiana vai-se encontrando. “O meu corpo acabou por ser celeiro de muitas memórias, de muitas vivências, e é como se eu ainda estivesse a descobrir, através do corpo, os contornos emocionais do que vivi nos últimos poucos anos da minha vida”. O reconhecimento das velhas cicatrizes segue com novas marcas. “Estou na fase da serpente que muda de pele, da borboleta que sai do casulo, e essa metamorfose tem etapas que não são bonitas”. A transição encontra tradução musical em “reEncanto”, o mais recente álbum da cantora cabo-verdiana, gravado ao vivo e maturado em gestação. “Estava já a deixar essa vida [de Dayo] crescer em mim, e a reverberar na minha voz de uma forma diferente”. De lição em ensinamento, a cantora e compositora reconhece: “Nunca aprendi muito pelo amor, nem pela alegria. Acho que somos uma espécie que aprende pela dor e adversidade”. Orgulhosamente africana, esta filha de um antigo combatente pela Independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau apresenta-se também como pan-africanista. “Sou africana e sou de uma nação crioula. Temos uma herança genética e cultural e social europeia, mas somos um país africano. Nós aprendemos a partir pedras, e espremer leite das pedras”. Sem renunciar aos sonhos de um destino mais justo para África, Mayra Andrade, premiada este ano com o Lifetime Africa Achievement Prize nos Millennium Excellence Awards, lembra que “é difícil pensar num futuro brilhante para o continente africano sem pensar numa mudança global”. Acompanhe a conversa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND - Jonathan Ferr | 28 Oct 2025 | 00:01:56 | |
Sem filtros, Jonathan Ferr fala sobre como a espiritualidade ajudou a dissipar o ceticismo e trouxe uma nova compreensão da vida, focada no processo, e não na ansiedade de resultados. Com uma visão única, Jonathan desconstrói ideias pré-concebidas sobre prosperidade e revela a importância de estar rodeado de pessoas que também vibram em abundância. https://www.otalpodcast.com/p/jonathan-ferr See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Episódio Especial ao Vivo: “Precisamos voltar a esta cena super futurista que é estarmos juntos uns com os outros” | 10 Jul 2025 | 01:34:29 | |
Ao vivo na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa, numa atmosfera intimista que contou com a intervenção do público, Georgina Angélica e Paula Cardoso receberam como convidadas a jornalista Catarina Marques Rodrigues e a multifacetada artista Selma Uamusse, para uma conversa sob o tema “Abrir espaço para o inesperado”. Neste episódio especial d’ O Tal Podcast, as anfitriãs inauguram um ciclo de encontros que pretende aproximar podcasters e públicos, a partir de conversas sobre o que nos une, afasta e mobiliza a escutar, falar e agir. A proposta juntou, no passado dia 22 de junho, Catarina Marques Rodrigues, autora do podcast “Dona da Casa”, que integra a programação da Antena 3, e Selma Uamusse, uma das apresentadoras do “Cinco à Quinta”, formato apresentado na Antena 1. Desafiadas por Georgina Angélica e Paula Cardoso a “Abrir espaço para o inesperado”, Catarina e Selma partilharam o seu compromisso com a construção de um mundo mais inclusivo, a partir do diálogo. “Precisamos de parar de achar que somos donos da razão, e escutarmos mais”, sugere a cantora, autora, compositora e performer, acrescentando que “num tempo em que queremos muito ter um espaço de fala, a escuta ensina-nos muito”. Mas, até que ponto temos a capacidade de cultivar o silêncio num mundo em que o ruído ganha cada vez mais palco? Catarina lembra que há um lugar de autoproteção quando, conscientemente, escolhemos não dizer nada. “O silêncio também te leva à tranquilidade de sentires que não tens que começar uma guerra de cada vez que te sentes injustiçada, ou que te sentes vista com um olhar que não é correto”. Entre o que se cala e se diz, Selma lembra a importância de abrir caminho para novos encontros. “Como é que chego ao outro? Através do amor. E isso tem que ser aquilo que me tira o medo de falar com uma pessoa que votou no Chega, com uma pessoa diferente de mim. Onde há amor não há medo". Talvez more aí, nessa ausência de amor, a explicação para as barreiras que erguemos à nossa volta. “O medo é a raiz de muitos dos nossos problemas. O medo de perdermos poder, de não sermos importantes, de os outros nos virem substituir, de não sermos aquilo que poderíamos ser, por causa dos outros e do sistema que outros criaram, o medo de tudo, e de nós próprios” Aqui enterrados e assim aterrados, como escapar? Selma troca os cultos de personalidade pelo cultivar de comunidades. “Mudo de casa, e a primeira coisa que faço é tocar à campainha [dos vizinhos] e dizer: olá, eu sou a Selma, este é o meu marido, estas são as minhas filhas, se precisarem de alguma coisa, nós estamos cá. Eu vou precisar de vocês”. Na disponibilidade para o outro, percebemos, se calhar, que o património humano que nos liga é muito maior do que as perceções desumanas que nos afastam. “O real problema não são os ciganos ou as pessoas trans, é uma narrativa para nos pôr em guerra, e ver o outro como o nosso inimigo”, nota Catarina, enquanto Selma acrescenta: “Precisamos voltar a esta cena super futurista que é estarmos juntos, uns com os outros”. O Tal Podcast quer continuar a abrir esse espaço, por isso no próximo dia 28 de setembro regressa à Fábrica Braço de Prata, com a gravação ao vivo de um novo episódio. Até lá, pode ouvir aqui a conversa de Georgina Angélica e Paula Cardoso com Catarina Marques Rodrigues e Selma Uamusse. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Joana Gorjão Henriques: “Todos os dias faço uma desaprendizagem dos meus preconceitos” | 03 Jul 2025 | 00:53:05 | |
Humanista da parte de pai e mãe, Joana Gorjão Henriques partilha, neste episódio d’ O Tal Podcast, como o património de valores familiares se tornou um ativo para a vida. “O meu pai tinha uma relação muito próxima com Cabo Verde, porque foi cooperante depois do 25 de Abril. A minha mãe era educadora de infância, e especializou-se em meninos com necessidades especiais”, conta, recordando algumas experiências que a marcaram. O pai, por exemplo, regressou da temporada cabo-verdiana com um novo hábito: “Fazia uma coisa que nunca mais me esqueci, que era parar nas paragens do autocarro a perguntar às pessoas se queriam boleia, porque tinha lugar no carro”. Já a mãe, acrescenta, “fazia trabalho na escola pública”, e tinha o cuidado de mostrar aos filhos “outras vidas”, humanizando-as. Não estranha, por isso, que a jornalista encontre na educação que recebeu as raízes para um compromisso que se tornou central nas suas escolhas: a defesa da Justiça. “Quando alguma coisa não está bem, vou por aí afora para tentar corrigir aquilo que acho que são injustiças”, assinala Joana, distinguida em 2018 com a medalha de ouro comemorativa do 50.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos da Assembleia da República. O reconhecimento profissional – pela publicação de várias reportagens “sobre o tema do racismo e da discriminação” e, em particular, pela série “Racismo à Portuguesa” – tem marcado a trajetória de Joana, que, no entanto, afasta excecionalismos. “Não acho que seja especial, ou que tenha alguma coisa extraordinária, o facto de alguém vir de um meio privilegiado e fazer o tipo de trabalho que faço”. A especialização, revela nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, tornou-se incontornável a partir de dois anos de período sabático, em que foi bolseira da Nieman Foundation for Journalism, na Universidade de Harvard. “Estudar Sociologia nos EUA deu-me uma perspectiva completamente diferente das questões raciais”, nota, explicando que a experiência americana lhe permitiu “olhar para as questões da discriminação de uma maneira estrutural”. No regresso a Portugal, precedido ainda de uma temporada em Inglaterra para estudos em “Sociologia da Raça”, a jornalista sentiu necessidade de perceber melhor a realidade afrodescendente do país. “Especializei-me [na denúncia do racismo] no sentido de começar a reportar ciclicamente e com consistência, um problema da sociedade portuguesa que ficava um bocadinho nos cantos”. O trabalho vai ao encontro de uma velha e longa prática profissional: “Há uma tradição jornalística de denunciar situações de injustiça e discriminação”, lembra Joana, sem esquecer os desafios. “Nós, jornais e media, temos muita responsabilidade em não ter posto bastantes travões [ao discurso de ódio], em alturas que era absolutamente necessário fazê-lo” Aqui chegados, como recuperar? A convidada desta semana de Georgina Angélica e Paula Cardoso parte do próprio compromisso. “Ao contrário das pessoas que sofrem discriminação, eu posso dizer ‘já não me apetece mais falar sobre isto’. Isso é um privilégio. Acho que o sentido de responsabilidade me faz continuar a andar”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Fernando Cabral: “Tenho sangue revolucionário fortíssimo. Acho que por isso me apaixonei pelo reggae” | 26 Jun 2025 | 00:54:27 | |
Filho de Luís Cabral, primeiro Presidente da República da Guiné-Bissau, e sobrinho de Amílcar Cabral, o histórico líder do PAIGC, Fernando Cabral encontrou nas raízes musicais da Jamaica um lugar de autodeterminação. “Quando as pessoas perguntam porque é que tens uma ligação forte com o reggae, eu digo: porque é uma música revolucionária, e eu tenho sangue revolucionário”. Desde os 25 anos profissionalmente lançado na indústria musical, Fernando percebeu, a partir de um estágio na VP Recordas, apontada como a maior editora mundial de reggae, que poderia fazer carreira entre sonoridades jamaicanas. A experiência, vivida em Nova Iorque, foi acompanhada de uma rotina especial: “Ia para Jamaica todos os dias”, recorda o programador musical e produtor de eventos, situando a conversa na estação de metro de Jamaica, em Queens, sede da editora. “Eu estava num armazém com os discos todos, com vedetas de reggae a entrar lá todos os dias. Foi o início de tudo para mim”. O circuito de espetáculos, festas “e tudo à grande” teve como reverso da medalha uma cambalhota de excessos, interrompida com a chegada da pandemia. “O Covid foi a minha salvação, porque parou o meu trabalho”, conta Fernando, assumindo, sem tabus, todas as escolhas: “Não tenho problemas em dizer: tive problemas de adição, e fiz um tratamento”. A mudança aconteceu aos 44 anos, marcados por várias lições. “Gostava de ter entrado em sobriedade mais cedo, mas aprendi muito e tive uma vida espetacular. Agora é olhar para a frente”. Pai de Marley e de Makeda, nomes escolhidos como homenagens ao ícone do reggae e à rainha de Sabá, Fernando sublinha a importância de honrar a herança Cabralista . “O legado que tenho na minha vida é de que não há impossíveis. Tudo o que eu quero, vou atrás”. Depois de lançar, com um amigo, a marca de roupa VIP – Very Important Preto, o programador musical quer expandir a ideia a um projeto de intervenção social, e de libertação das mentes. “O povo africano e o povo negro levou com tantos anos de ‘não prestas, és abaixo de nós’ que, de alguma forma, isso entrou na cabeça das pessoas”. Empenhado em transformar essa realidade, Fernando quer lançar um programa de formação de jovens, que abra novos caminhos de afirmação e valorização da negritude, já inaugurados com as t-shirts, hoodies e bonés da sua marca. “Raramente o preto é muito importante. O patinho feio é preto, o gato que dá azar é preto, tudo que é preto é mau. Então, pensei: por que não fazer uma cena que exaltasse [o preto]?”. A resposta veste-se com um apelo original, sem nunca despir ninguém. “A minha marca chama-se Very Important Preto. Podia ser Very Important Branco, Very Important Chinês, Very Important qualquer um. Todos somos pessoas incríveis e muito importantes”. Ouça esta conversa no episódio desta semana d’ O Tal Podcast, conduzido por Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Nara Couto: “Até hoje eu estou me recuperando da pandemia, das perdas” | 19 Jun 2025 | 00:58:10 | |
A dança, aprimorada no Balé Folclórico da Bahia, carimbou-lhe o passaporte para vários países, mas é entre o Brasil de nascimento e a África de múltiplos pertencimentos que encontra o seu palco principal, hoje construído entre o movimento e a música. Nascida na Bahia, Nara Couto tornou-se conhecida como bailarina e backing vocal de artistas como Gilberto Gil, Margareth Menezes, Ivete Sangalo e Daniela Mercury, antes de, em 2017, soltar a voz em nome próprio. A estreia aconteceu com o lançamento do single “Linda e Preta”, elevado, no Brasil, a hino de celebração da beleza feminina negra. “Sempre me senti bonita”, aponta a artista nesta conversa, reconhecendo, contudo, que, enquanto crescia, não era isso que o mundo espelhava. “A estética apresentada é sempre branca, como um modelo único”, sublinha, cada vez mais consciente da importância de quebrar padrões universais. “O entendimento da beleza negra é uma construção que vamos fazendo, desconstruindo a história que foi contada”. Nesse processo de reconstrução, o tema “Retinta”, que dá nome ao seu primeiro álbum, de 2022, apresenta-se como uma exaltação não apenas da beleza, mas da própria existência. “No Brasil estamos sempre em busca de voltar para casa, mesmo quando não sabemos que casa é essa”, aponta, sem nunca perder de vista as ligações africanas, aprofundadas com o projeto musical “Outras Áfricas”, e também com o candomblé. Iniciada nessa religião de matriz africana há nove anos, Nara vê na sua prática uma forma de preservar uma cultura que se estabeleceu no Brasil, a partir da “junção de povos e etnias” que chegaram ao país escravizados. “Mudou a minha vida”, assume sem hesitar, e já a planear a próxima etapa. “Estou a estudar para ser sacerdotisa, e no momento auspicioso assumirei esse posto”. Até lá, vive a arte e a música como um “sacerdócio”, em que reverencia quem veio antes. “Sempre canto composições de artistas por quem eu tenho uma grande admiração”, nota, incluindo Sara Tavares na galeria das suas referências. “Estar em Portugal mexe muito comigo, lembrar que ela não está mais entre nós fisicamente, e não vamos ouvir novas composições é difícil”, admite Nara, que, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, revela que as perdas da pandemia não ficaram para trás. “Talvez nunca me recupere, porque, por mais espiritualizados que nós sejamos, somos humanos. É difícil quando alguém muito próximo parte”. O processo, partilha a artista, constrói-se com Amor, que descreve como um “ato revolucionário”. Ouça o episódio completo aqui. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Solange Salvaterra Pinto: “Desistir é uma palavra que não está no meu dicionário” | 12 Jun 2025 | 00:56:14 | |
Ainda miúda, Solange Salvaterra Pinto “tomava conta da hora de almoço” da família com as novidades que encontrava nas publicações do Centro Cultural Português de São Tomé e Príncipe, país onde nasceu e cresceu. “Lia revistas de fofocas, livros, jornais”, conta a ativista social, recuando à origem de uma alcunha de boa memória: “France Presse”. Foi desta forma que o pai a apelidou, a partir de um hábito que o próprio ia estimulando, com uma simples pergunta: “Então, o que é que há hoje?”. Havia sempre muita coisa, porque, antes como agora, a são-tomense gosta de estar informada sobre o que vai acontecendo no mundo. Mais do que isso, Solange faz questão de partilhar conhecimento. Na pandemia, por exemplo, tornou-se uma voz ativa na sensibilização da comunidade são-tomense para a prevenção e tratamento da covid-19. Também nessa época, criou o podcast “Perguntas Incómodas”, no qual conduzia conversas sobre temas da atualidade, sem nunca perder de vista o propósito social. “A comunicação permite defender as pessoas, porque quando estás a dar voz, pões a pessoa em casa a ouvir e dizer: ‘Olha, nunca tinha pensado nessa perspectiva”. Herdeira de uma linhagem de combatentes pela Independência de São Tomé e Príncipe, há muito que Solange se faz ouvir como ativista social. “Se os meus avós, na altura do colono, não se vergaram, hoje eu não vou reclamar? Eu trabalho, voto, faço os meus descontos, sou uma cidadã exemplar. Tenho que reclamar, mas reclamar com soluções”. Dona do seu lugar, a também empreendedora explica, neste episódio, como a atitude confiante e a consciência dos seus direitos têm sido fundamentais para lidar com a doença crónica do filho, “desde os dois anos habituado a tomar morfina”. Hoje maior de idade, Maysha é “vida” e aprendizagem aos olhos da mãe. “Quando tens pessoas [no hospital] que estão com o teu filho durante 18 anos, a tratar, a dar carinho, tens a obrigação de pensar nos outros”. O compromisso coletivo, hoje vivido no ativismo, dirige-se, no futuro, para a Presidência da República de São Tomé e Príncipe, ambição política assumida sem hesitações, e já com o primeiro discurso presidencial esboçado. Para ouvir nesta conversa, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Francisco Borges: “Não tenho telemóvel. Costumo ler 10 livros por semana" | 05 Jun 2025 | 00:38:12 | |
Junho começou com a comemoração do Dia da Criança e, n’ O Tal Podcast, a data foi assinalada na companhia do estudante Francisco Borges, que, depois das aulas, ainda teve energia para conversar sobre direitos e deveres. “Um direito seria, na escola, os professores também deixarem-nos ter ideias”, sugere, explicando que as disciplinas acabam por se tornar um bocado chatas, quando os alunos não têm a oportunidade de participar. Mas, atenção: “algumas matérias não têm cura”, avisa Francisco, rápido em identificar o que há de melhor em ser criança. Por um lado, “fazer anos”, diz; por outro, “o desvio às responsabilidades”. A caminho dos 13 anos, que celebra em setembro, o convidado deste episódio gosta de festejar o aniversário, mas faz questão de dizer que não tem pressa para chegar à idade adulta. “Acho que ainda tenho um bom tempo para pensar naquilo que quero ser quando for mais crescido”. Para já, especializa-se como “devorador de livros”, assinatura que criou nas redes socias, com a ajuda da mãe, a partir de uma das suas grandes paixões: a leitura. Habituado, desde bebé, a ouvir histórias, tornou-se um leitor tão voraz que já perdeu a conta ao número de livros que leu este ano. Mas tem, na ponta da língua, o último recorde. “Costumo ler 10 livros por semana, só que como parti o pé, comecei a ler quase 10 por dia”, conta. Ainda a recuperar dessa fratura, que aconteceu enquanto jogava à bola no recreio da escola, Francisco conta, neste episódio, como tem sido chato ficar quieto, mesmo com tantas histórias para “devorar”. Percebe-se porquê, quando ficamos a conhecer as suas atividades extracurriculares: além de jogar futebol, treina kickboxing, faz natação, arranja tempo para umas partidas de xadrez, e ainda participa em conferências. Sempre com a mãe do lado, e sem telemóvel. “Acabo sempre por me divertir”, conta, desejoso de voltar à rotina desportiva. Até lá, continua a partilhar nas redes sociais outras aventuras do dia-a-dia, que, volta e meia, incluem idas ao tribunal, ou não fosse a mãe advogada. “Na minha página no Facebook e Instagram, partilho as minhas atividades, e também o meu gosto pela leitura”. Nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Francisco deixa ainda uma mensagem para as crianças – “leiam mais livros” – e uma receita para sociedades melhores: “O mundo precisa de mais paciência”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| André Biveti: “Sempre senti que era um produto do Estado Social português” | 29 May 2025 | 00:57:03 | |
Campeão nacional de atletismo em várias categorias, André Biveti já tinha conquistado um lugar no Centro de Alto Rendimento do Jamor quando uma lesão o afastou das pistas. Precocemente arredado da competição, numa altura em que conciliava as provas desportivas com os exames de Direito, encontrou na política partidária novas metas, traçadas a partir da sua própria realidade. “Aquilo que eu sou é, no fundo, o exemplo de como as políticas públicas e sociais são necessárias”, assinala nesta conversa, sublinhando a importância de continuarmos a defender o Estado Social. “É a comunidade que nos permite continuar a ter este imaginário de coletivo, ser solidários, e pensar que existem pessoas que necessitam de mais apoio.” Firmemente posicionado à esquerda, André começou por integrar a Juventude Socialista, movimentando-se hoje nas fileiras do poder local, na Junta de Freguesia de São Vicente, em Lisboa. “É o trabalho de proximidade que nos permite chegar às pessoas, aos nossos vizinhos, e fazer um trabalho comunitário. E é aí que está o coletivo”. Foi também nesse ‘chão comum’ que o hoje jurista começou por fincar a sua identidade. “Antes de me considerar português, já me considerava do bairro da Graça, porque aquelas pessoas já me reconheciam, já diziam que eu era um deles. E, portanto, o espírito comunitário tem essa lógica muito importante de criar raízes”. Filho de mãe angolana e pai congolês, que chegaram ao país como refugiados, André Biveti nasceu em Portugal a 10 de junho de 1992, mas só obteve a nacionalidade aos 15 anos, resultado que parece ter beneficiado da sua performance no atletismo. “Acredito que o desporto ajudou a acelerar o processo, porque chegaram a dizer que eu era um bom exemplo de integração”. Com ou sem o empurrão das pistas para garantir a cidadania portuguesa, é inegável que foi entre corridas que o ex-atleta encontrou o impulso para se afirmar. “Cresci como uma pessoa bastante tímida, reservada, e o atletismo deu-me um boost de autoestima”. O impacto positivo do pódio estendeu-se à escola, onde o socialista entrou para a lista dos melhores alunos. “Comecei a ter melhores notas quando comecei a evoluir mais no atletismo”. Formado em Direito – curso que concluiu depois de uma passagem desapontante por Ciência Política –, André conta que “apesar de já ter conquistado algumas coisas”, o peso dos “traumas geracionais” faz com que sinta a pressão de, a cada momento, saber se está a corresponder às expetativas. A começar pela paternidade, que classifica como a maior reinvenção de todas. Continue a seguir esta história, na companhia d’ O Tal Podcast, com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Luísa Semedo: “Nunca tive problemas em aceitar cargos de responsabilidade. Quando era miúda pensei ser Presidenta da República” | 22 May 2025 | 00:51:46 | |
O destino de uma vida na fábrica parecia já traçado na história de Luísa Semedo, mas, mesmo sem qualquer modelo que lhe pudesse servir de referência, era para a liderança política que os seus sonhos apontavam. “Quando era miúda, pensei ser Presidenta da República”, conta neste episódio, distanciando os planos infantis de ambições de poder, e aproximando-os do desejo de cuidar. “Sou a irmã mais velha, tive que cuidar dos meus irmãos, tive que cuidar também dos adultos da minha família, que tinham algumas problemáticas. E, portanto, sempre fui a mãe de muita gente”. Desde cedo habituada a assumir e a acumular responsabilidades, a investigadora reconhece agora a necessidade de parar. “Estou a viver um burnout há alguns meses. Estou a tentar sair dele, e a fazer muita aprendizagem em relação a isso.” O diagnóstico de Luísa surgiu após o assassinato de Odair Moniz, e confrontou-a com uma realidade ainda pouco conhecida, e até incompreendida: o burnout do ativismo, território no qual se move, em defesa dos Direitos Humanos. “Sinto-me, muitas vezes, num lugar de privilégio e, portanto, tenho dificuldade em dizer não, porque tenho que estar à altura e tenho que conseguir”. Nascida em 1977, em Lisboa, Luísa cresceu no Bairro da Serafina, filha de mãe portuguesa e pai cabo-verdiano, ambos operários. Ainda criança, recorda que deixou de acreditar em Deus, quando estudava numa escola de freiras. “Fiquei ateia, mas com medo de ser má pessoa”, admite. Já adulta e a viver em França, para onde emigrou aos 24 anos, a investigadora, escritora e cronista, procurou compreender se existe uma capacidade universal, e que não tenha que ver exclusivamente com a cultura ou a religião, que faça dos seres humanos boas pessoas. Foi aí que encontrou a empatia, tema da sua tese de doutoramento em Filosofia, pela Universidade Paris-Sorbonne. Nos antípodas desta descoberta, Luísa partilha ainda como o combate à discriminação a confrontou com o pior da desumanização. “Fui atacada por um neonazi, e pensei mesmo: vou morrer”. Sem heroísmos, a ativista conta, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, como lidou com essa e outras agressões: “Não é o que eu faço, é o que eu sou”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Carlos Dias: “A nossa maior força é o que sentimos. Na realidade não é aquilo em que acreditamos” | 15 May 2025 | 01:00:57 | |
Há um antes e depois do basquetebol na vida de Carlos Dias. Ex-internacional pela seleção portuguesa, campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal, o hoje terapeuta conta como esta modalidade o “salvou”. “Senti um sentimento de pertença que não tinha encontrado nos meus primeiros 13, 14 anos de vida”. Nascido em Lisboa, com raízes em Cabo Verde, Carlos recorda, neste episódio, como, desde muito cedo, percebeu os olhares preconceituosos que lhe eram dirigidos na rua, mais tarde transformados em verbalizações racistas. Além de ter bem presente o dia a dia de agressões que viveu com os colegas, nunca mais esqueceu as palavras de uma professora de Matemática. “Disse: ‘pois, é para isso que vocês servem, só para correr atrás de uma bola. Tu vais ser como o Eusébio, nunca vais saber falar”. Os ataques continuaram nos campos de basquetebol, vindos das bancadas, mas também dos balneários. “A última vez que eu joguei pela Seleção Nacional foi já na Seleção de Esperanças. Eu tinha 20 ou 21 anos, e aconteceu um episódio que fez com que eu não voltasse mais”. Sem rodeios, hoje Carlos fala assertiva e abertamente de todas as marcas do passado, sublinhando que a última coisa que alguma vez será é vítima. “O meu pai sempre incutiu em mim uma ideia de que o silêncio não é opção”. Herdeiro de uma linhagem masculina com carreira nas forças militares e de segurança, o ex-basquetebolista quebrou uma longa tradição familiar de fardas. Primeiro no desporto, que o fez conhecer várias cidades do mundo – e amadurecer o amor por Lisboa –, e agora na Psicologia, Carlos junta a esta formação, a certificação internacional em coaching. Mas faz questão de se desmarcar do “rótulo” de coach. “Fujo desse termo porque está muito contaminado”. Terapeuta motivacional e mentor, destaca a “tremenda sorte” de ter uma clientela 98% feminina, porque vê na mulher “o ser mais poderoso da Terra”, bem como “o farol emocional da Humanidade”, e “o veículo da vida”. Além de homenagear o poder feminino, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, Carlos Dias revela aquele que é seu papel mais importante: ser pai. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Aua Baldé: “Quando me sento na Assembleia Geral das Nações Unidas, estou lá eu, o meu afro e ainda ponho o turbante. É essencial celebrar-se a diversidade” | 08 May 2025 | 00:53:10 | |
Os voos internacionais são uma constante na vida de Aua Baldé que, muitas vezes, encontra na filha, Aicha, o caminho para ‘descer à terra’. “Por ela sou capaz de parar o mundo”, declara, rendida ao “grande privilégio” de desfrutar da maternidade. “Acho que as mães têm uma linha direta com Deus”, diz, enquanto aponta a própria progenitora como o seu porto seguro. “A minha mãe tem uma capacidade de empatia que não conheço [em] mais ninguém”, assinala, contrabalançado com o exemplo paterno. “O meu pai sempre me disse: o teu marido é o teu diploma. Portanto, não era uma opção eu não ir para a universidade”. A par dos estudos, Aua foi desenvolvendo um forte sentido de Justiça, canalizado para a especialização na área dos Direitos Humanos, património ameaçado por uma série de retrocessos democráticos. “A batalha por aquilo que é certo e que faz sentido para nós tem que persistir”, defende, partilhando a importância da “visão do unicórnio”. Nascida na pequena cidade de Canchungo, na Guiné-Bissau, Aua Baldé conserva memórias de uma infância feliz, povoada de laços comunitários. Ainda pré-adolescente, mudou-se para Portugal, período marcado por alguns desafios de integração, nomeadamente linguísticos. “O meu sotaque era completamente diferente e os meus colegas riam-se”, conta neste episódio, de volta ao “pesadelo” das aulas de Português do 6.º ano. Hoje formada em Direito, é professora universitária, mestre pela Harvard Law School, e doutoranda na Católica Global School of Law, destino académico que, sem os estímulos familiares, seria, à partida, inimaginável. Habituada a desafiar probabilidades, Aua dedica-se ao estudo e pesquisa na área do Direito Internacional Público, onde sobressaem as especializações em Direitos Humanos e Direito Penal, e a ligação a organizações globais, como as Nações Unidas. Mas, por mais milhas e diplomas que some, é na Guiné-Bissau que se encontra inteira. “Um bocadinho da minha alma sempre fica lá”. Continue a ouvir esta viagem, na companhia das apresentadoras Georgina Angélica e Paula Cardoso, n' O Tal Podcast.
See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Miguel Cardoso: “Se pusermos de lado o compromisso com o antirracismo, o que antes eram fantasmas e agora são pessoas, vai ganhar mais força” | 23 Oct 2025 | 00:59:09 | |
De um lado estavam os que torciam pelo Benfica e, por isso, queriam batizá-lo de Eusébio, figura ímpar na história dos encarnados e do futebol nacional. Do outro, aqueles que preferiam o Sporting, e insistiam em chamar-lhe Jordão, à letra de um ilustre leonino, também celebrizado na seleção das quinas. Quando este empate entre rivais de Lisboa parecia impossível de desfazer, o Brasil entrou em campo e resolveu. “Alguém sugeriu: ele tem o cabelinho parecido com o Pelé. Fica Pelé”. Nascia assim, entre jogadas de futebol de rua, a alcunha que acompanha a identidade de Miguel Cardoso desde os 10 anos. Hoje com 39, é fora das quatro linhas, numa frente de intervenção antirracista, que o convidado desta semana d’ O Tal Podcast deixa a sua assinatura. Diretor executivo da Black Europeans, iniciativa que no passado mês de setembro esteve sob ataque, na mira de uma campanha de desinformação, Miguel explica, nesta conversa, a importância do combate ao racismo. “Se pusermos de lado o compromisso com o antirracismo, o que antes eram fantasmas e agora são pessoas, vai ganhar mais força”, avisa, determinado em salvaguardar o futuro das próximas gerações. “A única forma de toda a gente ter uma vida melhor é cada um de nós dar um contributo significativo a esta luta antirracista”. O compromisso, sublinha Pelé, reforça-se a partir da paternidade: “Encontro esperança no meu filho. Olho para ele e vejo a força de querer continuar e construir uma sociedade melhor”. A inspiração para a mudança ativa-se não apenas a partir dos cuidados parentais, mas também de um cúmulo de microagressões. “Quando nasces num país, vais engolindo a história, a cultura, e foi nesse sentido que aprendi a amar Portugal. Mas o país demonstra que não gosta de mim, seja através de pessoas individuais, seja através de entidades públicas”. Um dos exemplos desse amor não correspondido está bem presente nas memórias de Miguel, que, nesta conversa com Georgina Angélica e Paula Cardoso, recorda como foi arredado da possibilidade de arrendar um apartamento. “Falei ao telefone com o proprietário da casa, ele não percebeu a minha cor. Quando apareci, basicamente tinha uma pessoa a dizer: não lhe vou arrendar por causa da sua cor de pele”. A experiência está longe de ser um caso isolado, nota Pelé, que explica como encontrou no choro um meio de libertação. “Percebi que tinha que chorar, porque não podia descarregar esta raiva sobre ninguém, não podia pegar na minha vivência e culpabilizar alguém. A sociedade foi estruturada desta forma, e tenho de aprender a lidar com o racismo”. Apesar dos sucessivos embates raciais, o gestor imobiliário garante que não guarda ressentimentos. “Não tenho nenhum rancor, nem ódio em relação ao país, mas eu não amo Portugal”, conta, insistindo na importância da reciprocidade. “Vibrava com a seleção nacional. Até dizia: sei o hino de Portugal, mas não o de Cabo Verde. Mas aprendi que esse amor não era recíproco” Noutras lições de vida, o convidado de Georgina Angélica e Paula Cardoso destaca os ensinamentos da ausência paterna. “Culpava a minha mãe por não ter um pai presente. Depois percebi, que ele não quis estar na minha vida. E comecei a questionar-me: porquê que não quis saber de mim?”. Ouça aqui este episódio d’ O Tal Podcast. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Eva Cruzeiro: “Só não perdoa quem tem uma expectativa quase desumanizada do outro. Eu estou sempre à espera que as pessoas errem” | 01 May 2025 | 00:56:01 | |
Batizada Eva, à semelhança da avó materna, o seu último apelido é Alexandre, mas apresenta-se com o seu outro sobrenome – Cruzeiro – em homenagem à assinatura familiar da avó paterna. É dessa forma, como Eva Cruzeiro, que o seu nome sobressai nas listas do PS, onde se tornou a candidata-surpresa na corrida às Legislativas do próximo dia 18 de maio. Apesar da forte curiosidade política que despertou nas últimas semanas, continua, contudo, a ser mais reconhecida como Eva Rapdiva, identidade artística forjada entre beats musicais. Nascida em 1988 na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, ‘combate’ desigualdades desde os 12 anos em batalhas de rap, género musical no qual ganhou notoriedade, com letras carregadas de análise e crítica social. O registo interventivo, extensão de uma personalidade inconformada com injustiças e exclusões, impulsionou os estudos em Ciência Política e Relações Internacionais, que se compromete a colocar ao serviço da atividade política. Pessoa de convicções firmes, Eva demonstrou cedo que sabe o quer: tinha apenas 12 anos quando anunciou o seu destino à “Doutora Ana Paula”, título que, em jeito de brincadeira, usa para se referir à mãe. Disse: “Vou ser uma grande cantora, cantar num estádio, ter a minha cara em outdoors, oferecer-te um carro, ter casa, tudo com a música”. Apesar do riso que arrancou da progenitora, a então aspirante a rapper partilha, neste episódio, que sempre contou com o apoio materno para seguir os seus sonhos. “Beneficiei de um contexto familiar que me ajudou bastante, e que fez de mim aquilo que sou hoje”. Aos 36 anos, a candidata a deputada à Assembleia da República pelo PS não esconde que tinha outros planos, desligados da política ativa e ligados à agricultura. “Mas acho que esta missão agora é bem mais importante. Porque a minha vida nunca foi só sobre mim e sobre os meus sonhos”. Assumida defensora do bem-estar coletivo, a nossa convidada de hoje lembra que as ameaças que vivemos exigem a mobilização de todas as pessoas. “Temos que estar alerta e nos unir para garantir que a democracia prevalece, as conquistas do 25 de Abril também, e que, no que toca aos nossos direitos, só iremos continuar a dar passos para a frente. Não há espaço para recuos”. Oiça aqui a conversa entre a “candidata sensação do PS” e as apresentadoras Georgina Angélica e Paula Cardoso, n'O Tal Podcast.
See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Gutto: “Black Company aparece nos livros da escola, faz parte da História” | 23 Apr 2025 | 01:04:20 | |
Apresenta-se como alguém “muito fechado, muito envergonhado, e muito introspectivo”, mas que, quando sobe ao palco, se transforma. Augusto Armada nos documentos, e Gutto na assinatura artística, o músico revela, neste episódio, que prefere estar no seu canto, longe da exposição. “Não é uma coisa específica minha. Conheço muitos artistas que são também assim”, aponta o ex-integrante dos Black Company, pouco ativo nas redes sociais, mas cada vez mais presente no equilíbrio da vida fora dos ecrãs. “A ida para o interior foi a melhor decisão de saúde que tomei, não só mental”, conta o improvável agricultor, hoje aos comandos da própria quinta. “Um mês depois de estar lá, a saúde física melhorou exponencialmente”, diz, completamente rendido à desaceleração dos dias. Mas mais do que fazer a ‘prova de vida’ do músico, nesta conversa percorremos alguns dos marcos da sua carreira. A começar pelo êxito “Nadar”, passando pela composição “Ser Negro”, sem esquecer a amizade com Boss AC, parceiro de vários projetos, incluindo uma turné nacional focada na Educação e Inclusão. Hoje a caminho dos 53 anos, Gutto, nascido em Luanda e educado na margem Sul do Tejo, dedica-se à formação e ao coaching comportamental, e vai matando saudades do palco com atuações pontuais. Para trás ficou o sonho de se tornar juiz, alimentado desde os 12 anos, e reformulado a partir de uma carreira inesperada na música, que conseguiu conciliar com a licenciatura em Direito. Sempre atento ao ritmo e poesia da vida, usa as redes sociais com muita moderação, e recentemente trocou a cidade pelo campo, onde se deleita a escutar os passarinhos, a apanhar azeitonas e fruta, e a fazer azeite. Oiça aqui a conversa de Gutto com Georgina Angélica e Paula Cardoso. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Vem aí uma nova temporada d'o Tal Podcast. Desta vez na companhia do Expresso | 16 Apr 2025 | 00:02:12 | |
Para quem já conhece O Tal Podcast, obrigada por se manter connosco. Para quem nos está a ouvir pela primeira vez, bem-vindo à quinta temporada do nosso podcast, desta vez integrado no catálogo de podcasts do Expresso. Por aqui já recebemos mais de 40 personalidades em conversas sem guião pré-definido, ao sabor das respostas dos convidados à mesa com Georgina Angélica e Paula Cardoso. A todas as pessoas desse lado, fiquem atentas aos novos episódios e subscrevam a nossa newsletter bissemanal. O primeiro episódio será publicado no dia 24 de abril em todas as aplicações de podcast e nos sites do Expresso, SIC e SIC Notícias. Contamos com todas e com todos. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| A quarta temporada | 05 Feb 2025 | 00:36:50 | |
Entre tudo o que os nossos cérebros não compreendem, o infinito ocupa - naturalmente - um lugar central. A partir de uns quantos zeros, os números ganham vida própria e abandonam a realidade próxima e perceptível. O Big Bang, os fractais, o numero de possíveis combinações do ADN, os grãos de areia de todas as praias imaginadas e já percorridas. A nossa mente não é capaz de segurar com propriedade esta imensidão, do enorme ao microscópico. A internet e a primeira e a definitiva infinitude cultural da humanidade. O universo digital expande-se a uma velocidade diária estonteante e submerge-nos num oceano de informação e significado - onde ainda não aprendemos a respirar. 500 horas de vídeo criadas em cada minuto, 8 bilhões de chips por ano, 400 milhões de podcasts. Um mundo medido em zettabytes, em si uma medida provisória, está para além da nossa capacidade de toque, de absorção, de reflexão. Habituados - crentes? - a um mundo com limites rígidos, estamos agora perante a fluidez e a potência do que é exponencial e extremado, em tudo. A lógica bipolar da internet produz, do outro lado, a longa cauda dos números ínfimos e invisíveis. O reverso da viralidade é o silêncio em que vive a esmagadora maioria dos conteúdos online, para os quais a luz das partilhas e da atenção colectiva nunca chegará a brilhar. A celebridade, quando chega, é traiçoeira e instável, sempre pronta a abençoar os próximos candidatos com o seu brilho irresistível e desapaixonado. Do outro lado dos números longos vivem os dados que nunca são vistos e que só interessam a muito poucos. E nesse espaço construímos O Tal Podcast e aprendemos os contornos do que parecem ser as regras do século: é mesmo muito difícil transitar da aritmética da criação para a álgebra da sustentabilidade, é ainda mais impossível planear a longo prazo, a atenção repentina é uma armadilha letal. E ainda outra regra, provavelmente dourada: quando alguém escuta, uma e outra vez, quando alguém sustem o olhar para isso que colocamos no mundo, significa que encontrámos a linha de fuga. Essa audição e esse olhar são muitas vezes individuais, familiares, animados por uma comunidade que cabe à volta de uma mesa. Na maior parte dos casos, não serão suficientes para a longa viagem na invisibilidade da rede. Mas quando a excepção acontece, o que aprendemos é que o caminho certo fica na direccao da proximidade, do toque, da presença. São os círculos pequenos e concêntricos que nos ensinam a força do que fazemos.Concluímos a quarta temporada d’O Tal Podcast com ainda mais questões, mais inquietação. Como ser pequeno sem ser insignificante? Como crescer sem esquecimento? Como brilhar de forma límpida e colectiva? O futuro que nos aguarda será definido por estas respostas. Queremos desenhá-las convosco.
See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Victor Hugo Mendes | 22 Jan 2025 | 01:09:59 | |
Pai de três, Victor Hugo Mendes (VHM) poderia muito bem fechar as contas da sua paternidade numa dezena de descendentes. Escrito de outro modo: gostaria de ter 10 filhos. O número impressiona, em especial numa Europa com algumas das mais baixas taxas de fertilidade do mundo, porém VHM não se deixa intimidar, assumindo valores ancestrais africanos na relação com a ascendência e descendência. Mas, em que medida as diferenças culturais – e até alguns choques –poderão ter comprometido o seu processo de adaptação a Portugal? Victor descomplica a mudança, e dá a conhecer, neste episódio, vários traços da sua personalidade. “Não consigo estar onde não sou bem-vindo. Prefiro abraçar o sacrífico a deixar-me estar”, diz, sempre pronto para acolher um novo desafio: “Preparo-me para as oportunidades”. --- Nascido na província angolana de Malanje, há 42 anos, cedo Victor Hugo Mendes começou a destacar-se como comunicador. Primeiro na rádio, onde assumiu as vezes de locutor e apresentador, e mais tarde na televisão, o hoje anfitrião do programa “Tem a Palavra”, da RTP África, também é reconhecido pela assinatura literária. Autor de seis obras, onde encontramos títulos como “Face 69”, “Tchiwekinha o menino vencedor” e, mais recentemente, “Nagrelha 2030”, Victor lembra-nos, no seu site oficial, que “Quem lê um livro nunca mais é a mesma pessoa”. Com uma trajetória recheada de prémios e reconhecimentos, o apresentador sobressai igualmente como orador em palestras sobre vários temas para a juventude, e ainda pelo apoio a causas de impacto social. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Cátia Semedo Ramos | 15 Jan 2025 | 01:03:15 | |
Chegou a estar na iminência de um esgotamento, porque “tinha muita dificuldade em dizer não”. Sempre disponível para os outros, Cátia Semedo Ramos foi-se esquecendo das suas necessidades, até viver uma depressão. Os sintomas da doença, silenciosamente incorporados, não escaparam à mãe, que, ao testemunhar algumas explosões de choro da filha, a aconselhou a procurar ajuda médica. As lágrimas continuaram a correr, mas, com medicação, sessões de terapia e tempo, ‘desaguaram’ numa nova consciência. A vivência, que Cátia partilha neste episódio, e sobre a qual fala abertamente, em palestras, entrevistas e workshops, surpreendeu muitas pessoas à sua volta, evidenciando a importância de conversarmos, sem tabus, sobre saúde mental, e de sermos capazes de reconhecer o problema e de pedir ajuda. -- Cátia Semedo Ramos considera que a sua melhor história “é contada na primeira pessoa”, e, sem hesitar, apresenta-nos o título: “From the Hood to Hollywood”, ou, em versão portuguesa “do bairro para Hollywood”. Filha de cabo-verdianos, criada no entretanto demolido bairro da Pedreira dos Húngaros, Cátia chegou a Hollywood como uma das batukaderas de Madonna. A viagem aconteceu em 2019, na tour de apresentação do álbum “Madame X”. No regresso a Portugal, esta orgulhosa “Doméstica Rara”, como também se apresenta, formou-se como Coach. Hoje, além de prestar serviço doméstico, trabalha como coach de hábitos e rotinas, é formadora, palestrante, atleta e autora do e-book “20 Receitas Práticas, Económicas e Saudáveis”. Mais recentemente, publicou o diário de autocuidado “My Journal, Hoje eu Afirmo!”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Paula Almeida | 08 Jan 2025 | 01:12:58 | |
“Estejamos mais abertos para acolher as nossas crianças!”. Mais do que a expressão da sua experiência profissional e da vivência pessoal, as palavras de Paula Almeida refletem a sua consciência sobre a necessidade de um despertar comunitário. “A mulher negra sempre acolheu”, assinala nesta conversa, entre partilhas sobre a sua própria viagem pela maternidade. Mãe de uma menina que, até ao seu acolhimento, vivia numa instituição, Paula conta como o seu trabalho de intervenção social a alertou para uma realidade que pretende ver alterada: a falta de famílias negras disponíveis para acolher e adoptar as “nossas” crianças. Consciente da força que poderá surgir de um maior envolvimento negro nestes processos, a filha da Dona Martina, neta da D. Guilhermina e bisneta da D. Mariana, partilha um dos ensinamentos recebidos da sua linhagem feminina: “Quem tem um filho, tem todos os outros filhos”. -- Dona de uma longa e vasta experiência em intervenção social e comunitária com crianças e jovens em situação de risco, Paula Almeida soma formações ao serviço da igualdade, e contra a exclusão social. Sempre em busca de novas ferramentas para aproximar grupos, Paula optou pela licenciatura em Estudos Africanos, na variante História e Desenvolvimento, porque viu nessa formação uma via para sustentar o trabalho que desenvolve junto da comunidade negra. A par da ligação aos mais novos, inclusivamente em instituições de acolhimento, Paula atua como técnica de intervenção familiar, facilitando a reparação e regeneração de contextos disfuncionais. Por uma sociedade mais humana. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Sofia Medina Andrade | 11 Dec 2024 | 01:08:48 | |
“Na vida há uma beleza muito grande em vermos as coisas acontecerem”. Sofia Medina Andrade ouviu esta frase em Moçambique, da boca do ex-colega Fernando, e nunca mais a esqueceu. “Fui um livro aberto e voltei preenchida”, conta, plena de tanta cultura que teve a oportunidade de absorver. Na altura ao serviço da organização Médicos do Mundo, a hoje especialista em aquisição de talentos revisita a temporada em Maputo como quem percorre um manancial de aprendizagens. A determinada altura dessa viagem, recorda Sofia, o controlo emocional desapareceu: “Saio do carro, e começo a chorar imenso”. O momento de catarse, na sequência da exposição a testemunhos sobre violência contra mulheres, favoreceu o início de uma busca consciente de autocuidado. Onde a coragem para dizer não, e o merecimento, significam trabalho em construção. -- Bélgica, Brasil, Moçambique e Portugal sinalizam direções na rota profissional de Sofia Medina Andrade, iniciada a partir da licenciatura em Comunicação e Jornalismo. Depois de sete anos nessa área, com experiência em assessoria de imprensa, gestão de eventos e desenvolvimento estratégico, Sofia encontrou, em 2021, um novo rumo nos Recursos Humanos. Hoje especialista em aquisição de talentos, empenha-se em promover e defender os valores da Diversidade e Inclusão. Não apenas nas empresas por onde passa, mas também aos microfones do podcast “Colour at Work”, projeto que criou para amplificar vozes sub-representadas no mercado de trabalho. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Maria Gorjão Henriques | 04 Dec 2024 | 01:36:20 | |
Assistimos a guerras e genocídios como se fossem obras de ficção, das quais nos desligamos quando mudamos de canal ou fechamos o jornal. Acompanhamos a crescente polarização dos debates, e habituamo-nos a repetir a palavra ódio, colada a discursos e campanhas. “Estamos num cruzamento essencial”, nota Maria Gorjão Henriques, para quem “nunca foi tão urgente honrarmos o nome da raça humana”. Facilitadora de consciência sistémica, Maria sublinha: “Ou nos permitimos despertar para a humanidade em Nós, ou nos vamos perder”. Ao encontro de Nós, a também terapeuta, escritora e psicóloga de formação empenha-se em mobilizar a força do “Amor puro e genuíno”, lembrando que a Consciência aliada ao Amor promove Cura. Mas como alimentar este movimento de humanização da vida, quando, conforme aponta, “vivemos num mundo de embalagem, e não de conteúdo?”. Buscamos respostas neste episódio, e todas elas convocam a nossa unidade. -- Formada em Psicologia, Maria Gorjão Henriques consolidou carreira no mundo financeiro, até ao dia em que decidiu agir de acordo com o que sentia e intuía. Despediu-se, mergulhou numa série de formações na área do desenvolvimento humano e espiritual, e tornou-se facilitadora de consciência sistémica. Cerca de 20 anos depois, dedica a vida a ajudar outras pessoas a encontrarem o seu propósito, e “a fazerem o seu processo de cura emocional e da sua ancestralidade, rumo a um despertar da consciência individual e coletiva”. Para isso fundou o Espaço Amar, a Consciência Sistémica em Portugal, o Campus de Consciência Sistémica e o Lagar das Almas, além de ter criado o movimento internacional “Unidos num só Coração”. Em 2023 publicou o livro “O despertar da consciência com as constelações familiares” e, já neste ano, lançou “Relacionamentos Amorosos - O espelho das histórias e dos traumas familiares”. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Solange Hilário | 27 Nov 2024 | 01:18:50 | |
Tinha apenas 15 anos quando se tornou um rosto conhecido do grande público, através da participação no concurso televisivo Ídolos, para descoberta de novos talentos musicais. Hoje, aos 31 anos, Solange Hilário recorda os altos e baixos dessa experiência, com o entendimento de que todas as pessoas deveriam ter a oportunidade de viver os desafios de um programa de TV do género. “Ajudou-me a crescer”, conta, sem mascarar dores nem desilusões. “Nos meus sonhos era de uma maneira”, admite, defendendo que conhecer a realidade permitiu-lhe compreender, livre de deslumbramentos, alguns processos de ruptura por que passam os artistas. Apesar das inúmeras pressões para caber numa caixa artística mais vendável, a hoje designer de interiores não se deixou "embrulhar" num destino que não sentia seu. Dona e senhora das suas escolhas, Sol considera que, a par do apoio familiar, sempre teve muita sorte com as pessoas que a acompanharam. Como Manuel Moura dos Santos, que, aos 16 anos, a protegeu do assédio de uma revista masculina para posar nua. -- Mestre na arte da reinvenção, Solange Hilário iniciou-se na música, ainda adolescente, mas a sua força criativa não permitiu que ficasse presa ao frenesim da agenda de espectáculos, inaugurada a partir da participação no concurso televisivo Ídolos. Multifacetada, Sol – como é carinhosamente tratada por familiares e amigos – também deu cartas na apresentação televisiva e na representação. Aliás, ainda hoje é reconhecida pelo papel que interpretou na novela angolana “Windeck”, experiência que lhe permitiu mergulhar fundo nas suas raízes angolanas. Hoje dedica-se inteiramente ao design de interiores, área na qual se especializa, através da marca Solange Interiors. Tem 31 anos, é natural de Matosinhos, casada e mãe da Sara, uma menina de 8 anos. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| REWIND - Maria Gorjão Henriques | 21 Oct 2025 | 00:01:26 | |
Estamos num cruzamento essencial”, nota Maria Gorjão Henriques, para quem “nunca foi tão urgente honrarmos o nome da raça humana”. Facilitadora de consciência sistémica, Maria sublinha: “Ou nos permitimos despertar para a humanidade em Nós, ou nos vamos perder”. Formada em Psicologia, Maria Gorjão Henriques consolidou carreira no mundo financeiro, até ao dia em que decidiu agir de acordo com o que sentia e intuía. https://www.otalpodcast.com/p/maria-gorjao-henriques See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Jonathan Ferr | 20 Nov 2024 | 00:44:38 | |
Sem filtros, Jonathan fala sobre como a espiritualidade ajudou a dissipar o ceticismo e trouxe uma nova compreensão da vida, focada no processo, e não na ansiedade de resultados. Com uma visão única, Jonathan Ferr desconstrói ideias pré-concebidas sobre prosperidade e revela a importância de estar rodeado de pessoas que também vibram em abundância. “Quanto mais me desconheço, mais quero aprofundar no ser chamado EU”, afirma, num diálogo que nos convida a repensar o que significa realmente prosperar.
See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Mónica Soares | 06 Nov 2024 | 01:42:52 | |
Um problema de saúde forçou a saída da família Soares de Cabo Verde para Portugal, onde Mónica acabou por nascer. O parto aconteceu em casa, entre as sete colinas de uma Lisboa que, com o tempo, se tornou irreconhecível. Habituada a brincar nas ruas de Alfama e do Castelo, Mónica cresceu na única família negra que, naqueles tempos, habitava aquele que hoje é um dos epicentros turísticos da cidade. A experiência, vivida sob o signo do “bom exemplo” e da excelência, que não pode deixar todo uma comunidade ficar mal, é revisitada neste episódio, onde se confronta o peso das barreiras raciais. Contra todas elas, Mónica não pára de se desafiar e de nos desafiar. “O que é o meu legado?”, ou “Como vou escrever o meu nome na história?”, são algumas das questões que a acompanham. Seguimos com elas. --- Idealizadora do projecto “Black Inspiration Talks”, recém-inaugurado em Lisboa, Mónica Soares quer incentivar e capacitar “profissionais negros a alcançar posições de destaque e liderança máxima”, nas mais variadas áreas da sociedade, preparando-os para “alavancar outros quando chegarem lá em cima”. O propósito nasce a partir da sua própria experiência profissional, “minada” de obstáculos, que faz questão de derrubar, conforme atesta o seu currículo. Co-fundadora da Chumeco e da Soares & Daia, Lda, empresa que pesquisa, contrata e agencia marcas internacionais de luxo, Mónica apoia a implementação e internacionalização de marcas nacionais e estrangeiras, com foco na estratégia, no conceito e na comunicação. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Juninho Loes | 31 Oct 2024 | 01:14:04 | |
O que o cabelo afro nos diz sobre a construção da identidade negra? Como nos podemos aprisionar ou libertar através das nossas raízes capilares? Quanto do nosso amor-próprio e autoestima cabe num penteado? Neste episódio, Juninho Loes, especialista em cabelos crespos, cacheados e ondulados, partilha experiências de renascimento e crescimento, vividas a partir de processos de aceitação, transformação e celebração capilar. A começar pela sua própria jornada de transmutação, onde a música ocupou um lugar central. Retirado dos palcos, que lhe sobrecarregavam a agenda de concertos, Juninho recorda como o ritmo das noites se tornou incompatível com os cuidados capilares que, de dia, se comprometia a prestar à sua clientela. A necessidade de uma mudança, que trouxe uma nova consciência de vida – nomeadamente no relacionamento com as mulheres – impôs-se a partir de uma interpelação do filho, que continua a reverberar. -- Proprietário do Salão Loes Saúde e Beleza, localizado na cidade brasileira de São Paulo, Juninho Loes faz do cuidado de cabelos crespos, cacheados e ondulados uma missão de vida. Formado pela Dudley Cosmetology University pelo Método Philip Hallawell, com especialização em Cosmetologia e Visagismo, o mentor e educador capilar criou o movimento “Nunca Foi Só Cabelo”, que promove o conhecimento e a valorização do afro, sem nunca perder de vista as raízes históricas e culturais. Esta é uma atuação já premiada pelo contributo para a igualdade racial, distinção que reconhece o impacto da discriminação capilar na vida das pessoas negras. Consciente da importância desta intervenção, Juninho não só criou o próprio método, denominado Loes, como faz questão de partilhar a sua experiência, através do projeto “Diversidades”, que oferece workshops e palestras. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||
| Ana Marta Faial | 23 Oct 2024 | 01:59:33 | |
O bem-estar da família veio sempre em primeiro lugar. Por isso, quando a sua carreira de manequim estava bem encaminhada para seguir um rumo internacional, Ana Marta Faial priorizou a maternidade. “Tinha pessoas mais importantes; coisas mais importantes do que ir para fora”, conta neste episódio, em que revisita a infância e adolescência em Angola, e desconstrói padrões familiares de relacionamento. Sem tabus, a antiga modelo partilha a violência que sofreu na última relação, tão abusiva que chegou a temer pela vida. No início, porém, revela Ana Marta, múltiplos sinais contrários foram mascarando a realidade, e bloqueando a consciência das agressões psicológicas. Entre altos e baixos vividos ao lado de um narcisista, num dia-a-dia em que gestos de afecto contrastavam com ciclos de humilhação, a presença e apoio dos filhos revelou-se – e revela-se – fundamental. “Ninguém é forte o tempo todo”, sublinha nesta conversa, em que antecipa o lançamento de um livro, e percorre os tempos de manequim, quando ‘desfilava’ num mundo só de meninas brancas, com o rótulo’ de “Ana Preta”. -- Nascida no Cubal, município da província angolana de Benguela, Ana Marta Faial viveu aí a infância e adolescência até se mudar, aos 18 anos, para Portugal. Na altura já casada e mãe, fixou-se em Trás-os-Montes, onde o frio agravou o impacto da mudança, mas não lhe congelou os movimentos. Pelo contrário, foi em território luso que a angolana “descongelou” o velho sonho de se tornar manequim, cumprido sem descurar as exigências da educação de dois filhos menores. Apesar da entrada tardia no mundo da moda, foi distinguida como “Manequim do Ano”, em 1986. Até hoje reconhecida pelos dotes de passerelle, a ex-modelo tem colocado a sua experiência ao serviço da formação de novas gerações. Hoje com 66 anos, além de formar manequins, e juntar a sua assinatura profissional às marcas Elite Model Look Angola, Cabo Verde e Moçambique, Ana Marta conjuga talentos de artista plástica com os de designer de moda. See omnystudio.com/listener for privacy information. | |||