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O cinema pode fazer mal? Até onde pode ir? Filmes “malditos”, parte II16 Oct 202600:41:03

O cinema faz mal? Pôr uma criança de 12 anos, a idade de Brooke Shields em 1978, a fazer um papel altamente sexualizado como o que fez em Pretty Baby é difícil de aceitar hoje?

Neste episódio de No Escuro voltamos aos filmes "malditos" a pretexto do regresso algo tonitruante em terras de Sua Majestade de The Devils, filme de Ken Russell. Até hoje só tinham circulado cópias truncadas, e uma cena em particular, conhecida como a "violação de Cristo", tornou-se mítica precisamente porque nunca fora vista. Volta agora aos cinemas britânicos, esse filme com odor blasfemo, passados 50 anos da estreia (algum distribuidor em Portugal se interessará?). É a versão original, como o realizador a concebeu. Procede-se simultaneamente a uma revisão do lugar de Russell no cinema britânico e internacional, ele que foi sempre liminarmente recusado pela crítica que o recebia com mimos como "grotesco"; agora, depois de morto, está a ser bafejado pelo trabalho escultural do tempo.

Mas serão os espectadores de 2026 semelhantes aos da década de 70, ou seja, aventureiros e dispostos a serem violentados?

Partimos do The Devils —​ filme que teve Derek Jarman na equipa de direcção artística —​ para mais uma viagem (que já tínhamos iniciado no episódio anterior) por obras que causaram escândalo e fascínio, repulsa e admiração, simultaneamente. Obras que, pelo sexo, pela violência, pelo horror, pela denúncia de instituições como a Igreja, exploraram os limites do que pode ser mostrado e quiseram ir aonde nenhum filme tinha ido antes.

Recuamos até aos anos 1930, em que Freaks, de Tod Browning, expõe os "monstros" para dizer que, afinal, os monstros somos nós. Mas centramo-nos nos anos 70, a década que mais convenções desafiou. E terminamos em 2003, com The Brown Bunny, filme com uma famosa cena de sexo oral não simulada que, contra todas as previsões anunciadas, não destruiu a carreira de Clöe Sevigny.

Neste episódio, os filmes de que falamos são:

Freaks, de Tod Browning (1932)

The Devils, de Ken Russell (1971)

Cães de Palha, de Sam Peckinpah (1971)

Pink Flamingos, John Waters (1972)

O Exorcista, de William Friedkin (1973)

Pretty Baby, de Louis Malle (1978)

O Bebé de Mâcon, de Peter Greenaway (1993)

Kids, de Larry Clark (1995)

The Brown Bunny, de Vincent Gallo (2003)

No episódio anterior falámos de:

O Nascimento de Uma Nação, de D. W. Griffith (1915)

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)

O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)

Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)

Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)

O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)

Je Vous Salue Marie, de Jean-Luc Godard (1985)

Veludo Azul, de David Lynch (1986)

A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso apelo é: #levantemoraboevaoaocinema.

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A manteiga, o ovo, os “malditos”: de "O Último Tango em Paris" a "O Império dos Sentidos"09 Oct 202600:49:04

Não têm uma história na escola, quando, no recreio, entre miúdos como vocês, alguém se atreveu com "a cena da manteiga" por causa de um filme chamado O Último Tango em Paris, título aliás que não emitia nada de lascivo?

São mais novos do que isso...

E a "cena do ovo" de O Império dos Sentidos? E Singin' in the Rain e as violações, ou a violência e uma sinfonia de Beethoven, em Laranja Mecânica, mais as longas pestanas de Alex DeLarge e um medo que fechava as portas sempre que, a partir de então, se olhava para Malcolm McDowell?

E os distúrbios na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa, por causa da programada exibição de Je Vous Salue Marie, de Godard? Levou à mobilização de grupos católicos conservadores no edifício da Rua Barata Salgueiro, fúria liderada pelo então presidente da câmara Nuno Abecassis, pretendendo "escaqueirar" tudo se a programação fosse avante (ele que já tinha escaqueirado o clássico cinema Monumental...).

A memória também é uma construção. Mesmo quem não esteve lá, mesmo quem não tenha testado os pais com "e o que é a cena da manteiga?", herdou um património. É sobre isso este episódio de No Escuro: a forma como os "filmes escandalosos" são parte das nossas vidas, constituem-nos. Por isso a deflagração de emoções quando ouvimos o saxofone de Gato Barbieri, que assombrava o genérico, com as pinturas de Francis Bacon, n'O Último Tango... , a carícia, que é a voz de Pierre Bachelet, no tema de Emmanuelle ou a insinuante melodia de Blue Velvet que Bobby Vinton transforma em garrote.

Foi com essas conquistas do cinema sobre os limites do que podia ser mostrado que nos tornámos novos espectadores. O "escândalo" é como o ginásio: provoca dores, rasga, e por isso o músculo cresce. Evocações deliciosas que raiam o mito: atravessava-se a fronteira para ir a França ver um filme, O Último Tango..., porque a censura, em Portugal ou em Espanha, não autorizara a estreia.

A matéria é vasta. Até porque os escândalos se reeditam: se a manteiga é velha, recente é a "descoberta" de que a actriz Maria Schneider não sabia que com ela iria ser barrada por Marlon Brando na sequência da violação, o que tornou O Último Tango em Paris, de novo, um símbolo. De sinal contrário, desta vez, ao da liberdade ou da quebra de tabus. Questiona-se agora os limites da criação: até onde pode ir um filme?

Dedicaremos duas jornadas ao assunto. Neste episódio evocamos:

O Nascimento de uma Nação, de D. W. Griffith (1915)

Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick (1971)

O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci (1972)

Emmanuelle, de Just Jaeckin (1975)

Saló, os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini (1975)

O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima (1976)

Je Vous Salue Marie, de Jean Luc Godard (1985)

Veludo Azul, de David Lynch (1986)

A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese (1988)

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Desta vez, com "Digger", Tom Cruise estatela-se?02 Oct 202600:33:39

Uma pergunta e uma incontida melancolia: porque é que Tom Cruise não é um actor de "filmes normais", de comédias românticas ou de pequenos, serenos melodramas?

Porque é que cada projecto tem de equivaler a uma proeza, como se fosse um mergulho no Grand Canyon ou um voo planado a partir do Empire State Building?

Porque é que um filme com Tom Cruise se reconduz sempre à exibição de um solo? (saudades de A Cor do Dinheiro).

Porque é que está sempre em causa a salvação do cinema?

É o que nos perguntamos neste episódio de No Escuro, na semana em que estreia Digger, o filme que à fome (de Cruise) junta a vontade de comer (de Alejandro González Iñárritu): o sublinhado, o sentencioso, o grotesco.

E eis como Digger, em que o actor interpreta um milionário e o mundo está a braços com a catástrofe climática, está já a dividir. Talvez por essa Tom não esperasse, ele que, entre outras coisas, é um salteador da arca perdida do consenso.

Depois de verem o filme e de ouvirem este episódio do podcast, digam se concordam connosco neste, mas também pode ser noutro, ponto: "Viva Riz Ahmed!"

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Estreia. "O Homem Que Matou Duas Vezes". Episódio 1: O Apelo30 Sep 202600:32:14

Um homem mata uma ex-namorada. Uma amiga da vítima pede que se averigue o que falhou, uma vez que ele já antes matara uma ex-namorada, cumprira pena de prisão e estava ainda em liberdade condicional. O que falhou?

O Homem Que Matou Duas Vezes é uma investigação de Ana Cristina Pereira, que escreveu os guiões e faz a narração, com produção de Inês Rocha, revisão de Inês Rocha e Sara de Melo Rocha, sonoplastia de Margarida Adão, música do genérico de Tiago Orato, ilustrações de José Carvalheiro e produção executiva de Amílcar Correia.

A série narrativa, de sete episódios, vai além da reconstrução dos crimes cometidos por João Pedro Oliveira. Recupera a história das vítimas e do homem que as matou ao mesmo tempo que escrutina o sistema.

Para conhecer a história toda, ouça os próximos seis episódios. 

Se precisa de ajuda, ligue para o Serviço de Informação às Vítimas de Violência Doméstica da CIG: 800 202 148. Ou para a linha de Apoio à Vítima da APAV: 116 006.

Outros créditos: som recolhido em manifestação em Lisboa, em 2024, de grupo de mulheres a cantar Canción Sin Miedo, com música e letra de Vivir Quintana; trailer Retrato de Dorian Gray, filme de 2009, realizado por Oliver Parker, com guião de Toby Finlay, a partir da obra homónima de Oscar Wilde.

 

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Entre o sexo de "... Acampamento Miasma" e a cabeça de Almodovar, preferimos o sexo25 Sep 202600:39:01

Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é título de filme de terror. O cartaz, com as duas protagonistas cobertas de sangue, também aponta nessa direcção. Mas não nos precipitemos, porque quem não gosta de terror pode ter a tentação de o evitar e seria uma pena. Há sangue a jorrar e algumas cabeças a voar apenas porque Jane Schoenbrun, cineasta, presta aqui homenagem ao género slasher. Mas depois transcende-o para fazer um filme que é, afinal, muito mais sobre sexo e como encontrar um lugar seguro no medo, por paradoxal que possa parecer.

A personagem principal, Kris (Hannah Einbinder, que não anda longe de ser um alter ego de Schoenbrun), foi convidada a recuperar a série de filmes sobre o Acampamento Miasma, voltando ao espírito original depois de várias tentativas para manter o entusiasmo dos fãs vivo. Para isso, quer ter no filme a "última rapariga" do episódio original. Ela é Billy (Gillian Anderson) e vive, reclusa, no acampamento isolado onde foi filmado o primeiro Miasma. É uma espécie de Norma Desmond, a diva de Sunset Boulevard, a olhar para o passado, mas leva-se bastante menos a sério. Até porque aprendeu — e esse será o segredo que fascina Kris — que "se as coisas forem demasiado reais, podem-se sempre desligar".

O medo e o prazer são aqui uma aprendizagem, com a ajuda da Pequena Morte (não é por acaso que assim se chama ao orgasmo), jovem vítima de transfobia, que quando quer matar de novo sai do fundo do lago onde vive. O lago, esse sítio "de onde vêm os filmes" — leia-se o lugar dos traumas passados — para fazer jorrar o sangue. Mas, afinal, é no meio de frango frito e de gomas cheias de açúcar que Kris se reconcilia com o sexo e o desejo, e é tudo isto que faz deste filme queer um objecto vindo mais do corpo do que da cabeça.

Ao contrário do que acontece com outra estreia da semana, Natal Amargo, de Pedro Almodóvar, que já foi, ele também, mais sensual e menos cerebral. Agora, a urgência de filmar transforma-se numa obra que se perde na teia (demasiado) intricada da auto-ficção.

Andamos por aqui, entre o corpo e a cabeça, neste episódio do No Escuro, onde até cabem Clint Eastwood e Nanni Moretti (ouçam, para perceber porquê) e o Psico de Hitchcock, referência fundamental para as questões de identidade de género centrais na obra de Jane Schoenbrun. Aliás, quando ainda não tinha abandonado as suas preocupações woke, Kris, a personagem da realizadora, fizera "o Psico do ponto de vista da cortina do chuveiro". Mas isso, claro, foi antes de experimentar o orgasmo.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.

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No Escuro com a controvérsia de 2026, NAZA, denúncia da máquina de morte israelita18 Sep 202600:46:52

Portugal, a Espanha e a Itália serão os primeiros países europeus a estrear NAZA, o filme do quarteto israelo-palestiniano formado por jornalistas e activistas que recebeu o Prémio Especial do Júri na última edição do Festival de Veneza — dia 1 de Outubro nas salas portuguesas, distribuído pela Nitrato Filmes.

Deram a cara por NAZA Yuval Abraham e Rachel Szor tal como pelo filme anterior, No Other Land, foram Abraham e Basel Adra que figuraram no genérico como realizadores e se deslocaram a Hollywood para receberem o Óscar do melhor documentário em 2025.

Nenhum deles é estranho à polémica, mas com NAZA os israelitas Abraham e Szor enfrentam neste momento um dos períodos mais difíceis das suas vidas. Estão a ser acusados de traição pelos sectores conservadores de Israel, de se aproximarem do anti-semitismo, ou de serem mesmo anti-semitas, e o governo anunciou pôr em marcha um processo de revogação da cidadania. Nada que não tivessem previsto: durante a conferência de imprensa em Veneza, perguntavam-se já o que os esperaria no regresso ao país, algo que até aqui parecia ser exclusivo dos cineastas iranianos acusados de traírem a república islâmica fazendo os seus filmes. Ou como uma "democracia" se socorre, para se proteger, dos mesmos mecanismos de terror de uma teocracia.

O "escândalo" de NAZA não é mais do que o resultado de uma investigação jornalística. Foi publicada em 2023 e desvenda, através do testemunho anónimo de 24 ex-operacionais do exército, um sistema de matança de palestinianos, no pós- 7 de Outubro de 2023, comandado à distância com ferramentas de Inteligência Artificial que autoriza a morte de civis em nome de se atingir um alvo em Gaza: um (suposto) terrorista do Hamas. Quando em NAZA um dos operacionais faz desenhos num papel a explicar em que é que se apoia esse sistema, limpo e tecnológico, não pode deixar de ser convocada a sequência em que Claude Lanzmann, no monumental Shoah (1985), com uma câmara escondida, filmava Franz Suchomel, um SS em Treblinka, um criminoso de guerra, a descrever de forma também fria a "coisificação" das vítimas da Solução Final.

As anteriores vítimas são agora os carrascos? NAZA, filmado à noite em Telavive durante três anos, e nas alturas das torres da cidade, para proteger o anonimato das suas fontes, é por isso um filme sobre a sociedade israelita, fechada num silêncio cúmplice. Com isso o governo de Israel não está a conseguir lidar.

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Hope é o filme mais divertido que vimos este ano. Os monstros vieram da Coreia11 Sep 202600:38:01

Monstros (mas o que são os monstros, afinal?) e humanos numa pequena cidade perto da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias. Homens com armas nas mãos, sem saber como travar uma orgia de destruição inexplicável, descrições escatológicas detalhadas, gente estranha, a comédia humana em versão filme catástrofe, em versão filme de extraterrestres, em versão western. Seres que podem ter saído da saga Alien ou de Avatar. Hope, do coreano Na Hong-jin, é um alucinante divertimento, com uma primeira hora de uma perseguição que não vamos esquecer tão cedo. Em que momento os coreanos transformaram a influência norte-americana em algo muito próprio, com um humor que mistura crítica social e violência de desenhos animados? O que é certo é que o Governo coreano percebeu a força do <em>soft power</em> e a cultura está no centro da sua estratégia.

Mas se a estreia de Hope nas salas portuguesas marca a rentrée, no Festival de Veneza, Vasco Câmara também se entusiasmou com um filme vindo da Coreia do Sul: Possible Love, de Lee Chang-dong, mais uma vez um olhar sobre a comédia humana, mas este mais melancólico. É a história de dois casais e de uma “​possibilidade” acontecer entre eles. "Não há uma moral da história, nem crime e castigo, nem espectáculo de '​filme de género' com os ricos e os pobres, aquilo que se generalizou cinematograficamente a partir do sucesso de Parasitas, de Bong Joon-ho (2019). Este é um filme, explicou o realizador, nascido do confronto de um tímido com as imparáveis mudanças nas sociedades", escreveu Vasco, a partir de Veneza.

E também em Veneza foi mostrado aquele que prometia ser um dos filmes mais importantes do festival: NAZA, feito por uma dupla israelita, Yuval Abraham e Rachel Szor, parte de uma investigação de 2023 que pôs a falar ex-funcionários israelitas do sistema de morte em Gaza. É uma fria máquina de guerra, distante das suas vítimas e indiferente ao mal que causa que se revela neste filme impressionante.

É da Coreia e dos seus monstros fictícios e de Gaza e do seu terror real que falamos neste episódio do No Escuro.

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Afinal, isto (também) é o Bangladesh04 Sep 202600:29:33

Rubaiyat Hossain é do Bangladesh e esteve em Portugal para a pós-produção do seu mais recente filme, A Noiva Difícil, que tem fotografia da portuguesa Leonor Teles, e que será apresentado no Festival de Veneza, que acaba de começar. Nessa passagem por Lisboa, encontrou uma comunidade triste e "de cabeça baixa" quando passeou pela Rua do Benformoso e percebeu que é com desconfiança que se olha para quem chega do Bangladesh - a indignação do Chega e de André Ventura, proclamando que "Isto Não É o Bangladesh" terá tido o seu efeito.

Mas em Rubaiyat, cujo cinema denuncia desequilíbrios sociais, de género e de classe (veja-se Made In Bangladesh sobre um grupo de operárias de uma fábrica de roupa que querem fazer um sindicato), a campanha do Chega teve um efeito certamente contrário ao pretendido: a realizadora decidiu fazer um filme passado em Portugal. Quer mostrar como a história dos dois países se cruza desde há muito e, para isso, criou a personagem de uma empregada de limpeza de um museu de Lisboa que se confronta com esse passado comum.

O Vasco Câmara já está em Veneza e vai ver como A Noiva Difícil será recebido, mas, para já, a notícia que deixou o festival em alvoroço foi dada à última hora (e não terá sido por acaso): Veneza vai mostrar NAZA, o novo filme de Yuval Abraham e Rachel Szor, a metade israelita do quarteto israelo-palestiniano (com Basel Adra e Hamdan Ballal) que realizou No Other Land, o documentário que venceu um Óscar no ano passado. NAZA é um acrónimo usado pelos serviços secretos israelitas que se refere aos civis mortos em operações militares - baixas que são assumidas como parte da estratégia adoptada contra a população palestiniana na sequência dos ataques de 7 de Outubro de 2023.

É o Festival de Veneza a tomar uma clara posição política, mostrando que há vida mesmo quando os mais mediáticos filmes americanos não comparecem - primam pela ausência Digger, de Alejandro González Iñarritu ou The Adventures of Cliff Booth, de David Fincher, e os respectivos actores, Tom Cruise e Brad Pitt. Neste episódio vamos falar disto - e do Bangladesh em Portugal.

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A doçura da Reboleira de Basil da Cunha — nem o jacaré mete medo28 Aug 202600:35:01

Isto não é um spoiler (e um dia destes temos de falar sobre spoilers): o jacaré é mesmo um jacaré, não é a alcunha de alguém. Falamos de O Jacaré, filme de Basil da Cunha, ainda (mas não sempre, porque ele diz que será o último nestes moldes) na Reboleira, o bairro onde escolheu viver com a comunidade que se tornou parte integrante da sua obra cinematográfica até hoje. Para quem viu os filmes anteriores deste cineasta luso-suíço — falamos de Até Ver a Luz (2013), O Fim do Mundo (2019), Manga d'Terra (2023) — é o regresso a rostos conhecidos, numa mistura entre identidades reais e personagens. São, na verdade, grandes actores, nesta mistura de vida e cinema.

É a periferia, sim, mas Basil da Cunha não é o Pedro Costa de No Quarto da Vanda, nem o Pedro Cabeleira de Entroncamento, é outra coisa, um olhar sobre a Reboleira que parte de dentro e que, mesmo atravessado pela dureza das vidas, nunca vai pela escuridão, mas sim pela música, pela festa, pelo inusitado que pode ser — e, neste caso, é — um jacaré numa piscina.

Há gangsters, gangues rivais, o dinheiro de um roubo que desaparece e que todos querem encontrar, há mulheres que não se deixam ficar, discussões, ciúmes, traições. Há ecos da Nova Iorque de Martin Scorsese, do Bronx, da Brooklyn de Spike Lee em Não Dês Bronca. E há um bairro, a Reboleira, que foi desaparecendo à medida que Basil o ia filmando — muitos dos lugares dos seus filmes já não existem e com eles desaparecem também ligações, histórias, cumplicidades, solidariedades.

Os filmes têm ido ao Festival de Locarno, mas os prémios ainda não chegaram — sinal de que há ainda ideias demasiado rígidas sobre o que deve ser o cinema português? É uma pergunta que fazemos neste episódio do No Escuro.

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Que belos desastres, os de Hitchcock, Kubrick, Spielberg, Coppola ou Cimino21 Aug 202600:50:17

Que lindos que são, estes desastres, que objectos fascinantes. E tão magoados!

Para o espectador, é como o fenómeno do acidente na auto-estrada: é despertado o voyeurismo de quem passa e também o desejo salvífico, de socorrer o ferido.

Hoje, curioso o destino do flop comercial — é disso que tratamos neste episódio de No Escuro —, aquele filme que destruiu ou mudou carreiras, que levou companhias à falência, tornou-se um objecto de culto, amado e preservado com carinho.

Desprezados na altura, são hoje tratados com desvelo. Filmes de culto, é como lhes chamam. Revisitamos as suas histórias neste episódio de No Escuro, começando pelo emblemático As Portas do Céu, de Michael Cimino, que não só fez do realizador praticamente um pária como pôs fim ao mais autoral período da indústria norte-americana. Ou, numa perspectiva da indústria, que em consequência disso se fechou, que se tornou mais conservadora: acabou com a arrogância dos realizadores!

São estes "falhanços" que contamos, do insucesso de bilheteira ao verdadeiro desastre. É mais do que um vol d'oiseau, portanto, tendo em estúdio os sons e as histórias de Vertigo e de Do Céu Caiu uma Estrela, hoje objectos canónicos, mas na sua época ignorados pelos espectadores; de um clássico, A Noite do Caçador, que hoje vemos prostrados de admiração, mas que na sua época tornou Charles Laughton realizador de um só filme; de 1941-Ano Louco em Hollywood, que primeiro pôs à prova a fama de Spielberg como o realizador que transformava tudo em ouro; das derrocadas que varreram do centro da indústria Cimino, Bogdanovich ou o hoje esquecido John Byrum, que nos anos 80 chegou a ser um boy wonder; do primeiro fracasso que humilhou o até então sempre vencedor Schwarzenegger...; do odiado casal, porque visto como arrogante, Cybill Shepherd/Peter Bogdanovich.

Por ordem de antiguidade, não pela ordem em que são referidos no podcast, eis os feridos:

Queen Kelly (1928/29) Erich von Stroheim

Do Céu Caiu uma Estrela (1946) Frank Capra

A Noite do Caçador (1955) Charles Laughton

Vertigo (1958) Alfred Hitchcock

2001 Odisseia no Espaço (1968) Stanley Kubrick

Daisy Miller (1974) Peter Bogdanovich

Barry Lyndon (1975) Stanley Kubrick

New York, New York (1977) Martin Scorsese

1941 Ano Louco em Hollywood (1979) Steven Spielberg

As Portas do Céu (1980) Michael Cimino

The Shining (1980) Stanley Kubrick

Do Fundo do Coração (1981) Francis Ford Coppola

Blade Runner (1982) Ridley Scott

O Fio da Navalha (1984) John Byrum

Ishtar (1987) Elaine May

O Último Grande Herói (1993) John McTiernan

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Há 100 novos títulos na Filmin. Excepção! Sem levantar o rabo, grande cinema14 Aug 202600:39:06

Há plataformas de streaming e plataformas de streaming. Algumas transformaram-nos em consumidores (sabem de quem se fala). Outras permitem que sejamos espectadores mesmo, curadores da nossa aventura.

Vamos directos ao assunto. A Filmin renovou no início de Julho o seu catálogo com mais de 100 filmes. Estão lá títulos aclamados como Amadeus e Voando Sobre um Ninho de Cucos, de Miloš Forman, cineasta que vai ser objecto de uma retrospectiva no Batalha Centro de Cinema, no Porto, A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman, A Costa do Mosquito, de Peter Weir, Ran, de Akira Kurosawa, O Último Ano em Marienbad, de Alain Resnais, Ser ou Não Ser, de Lubitsch, Cais das Brumas, de Marcel Carné ("t'as d'beaux yeux, tu sais"), O Relojoeiro de Saint-Paul, de Bertrand Tavernier, um dos seus mais belos mas razoavelmente desconhecido, ou Um Homem e Uma Mulher, de Claude Lelouch.

Mas também os chamados "clássicos modernos", como Ghost Dog: O Método do Samurai, de Jarmusch, Virgens Suicidas, de Sofia Coppola, Um Coração no Inverno, de Claude Sautet, autor de uma "música" delicada que em surdina influenciou o cinema francês, Abril e Quarto do Filho de Nanni Moretti, o David Lynch de Mulholland Drive, O Homem Elefante e Uma História Simples, o Godard de O Acossado, Pedro, o Louco, Alphaville e O Desprezo, o John Carpenter de Eles Vivem, O Nevoeiro e O Príncipe das Trevas.​

Começamos, No Escuro, por aqui: por um cineasta que pode ser simultaneamente glacial e comovente, Jean-Pierre Melville (O Círculo Vermelho, O Exército das Sombras, Bob, o Jogador e Cai a Noite Sobre a Cidade); pelo sortilégio do cinema de Luis Buñuel, realizador que, como quem não quer a coisa, derruba as resistências e descrenças do espectador, algo que se aproxima do verdadeiro hipnotismo (A Bela de Dia, O Charme Discreto da Burguesia e Este Obscuro Objecto do Desejo); por todo o Tati, o eterno e eternamente lúcido Sr. Hulot; pela passagem de Francis Ford Coppola para o "outro lado", One From The Heart e Apocalypse Now (e Os Marginais em versão integral); por Alain Delon, o actor com as mais belas mortes no cinema, e Patrick Dewaere, que talvez tenha morrido por causa do cinema.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano). #levantemoraboevaoaocinema

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Carlos Paião voltou! Trouxe os nossos fantasmas07 Aug 202600:40:51

Seguimos neste episódio o rasto de um cometa: Carlos Paião.

Figuras da política ou do espectáculo como Mário Soares, Álvaro Cunhal, Snu Abecassis e Sá Carneiro, Doce e António Variações tiveram o seu biopic ou foram objecto de interesse de realizadores portugueses. Mas os anos 80 do século XX português nunca foram mostrados assim, como em Playback, de Sérgio Graciano. Tão tristes e melancólicos que nós (ainda) éramos.

Comovente, isto: não é um filme sobre Carlos Paião (1957-1988); é um filme com Carlos Paião. Como uma presença que nunca desapareceu, que existe muito no fundo de nós, mas que talvez não soubéssemos que ainda vivia. Ou a nossa memória fez das suas, exerceu o seu capricho e imprimiu, antes, a "modernidade", a noite, a "movida", Portugal longe do Estado Novo e despedindo-se também da época revolucionária. A Lisboa de António Variações, por exemplo.

Assim, existiu um de um lado e outro no extremo oposto. Mas só os dois formam o retrato completo.

Porque é que uma figura tão provocadora, tão extravagante como Variações (1944-1984) foi entronizada depois da sua morte e Paião — que escreveu para Herman José e passou 12 canções a Amália (que só gravou O senhor extraterrestre), que venceu o Festival da Canção, que teve até aos seus 30 anos 300 canções na cabeça — permanece subterrâneo? Ou terá finalmente chegado a sua hora?

Legendary Tigerman/Paulo Furtado acompanha-nos nestes pensamentos. Foi ele que trabalhou a banda sonora do filme — de que consta um inédito, Lisboa, Lisboa — e formou uma banda que tem como vocalista Rafael Ferreira, o intérprete de Paião no filme, que se apresentará em concertos no final do ano.

Tão melancólicos, até sombrios, tão trapalhões e tímidos e tão desconfortáveis na nossa pele que nós éramos. Os nossos fantasmas: vemo-los em Playback.

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Eis em Portugal o filme que deixou Coppola e Scorsese boquiabertos: Soy Cuba31 Jul 202600:39:48

Estava a preparar Casino (1995), Martin Scorsese, quando descobriu a primeira co-produção entre a URSS de Nikita Khrushchev e a Cuba de Fidel Castro. Virtuoso obsessivo, ficou a matutar nos impossíveis movimentos de câmara que o georgiano Mikhail Kalatozov (1903-1973) concretizara em Havana em 1964. Onde desembarcara, vindo do frio da URSS, para fazer um filme que cantasse a revolução tropical, caribenha, que descera da serra Maestra e derrubara o regime de Fulgencio Batista, e para dessa forma a acrescentar à internacional comunista. E assim prolongar, cinematograficamente, as suas invenções formais que tinham estado ao serviço da propaganda soviética nos anos 30.

Ficaram, Scorsese e Coppola, embasbacados com Soy Cuba (1964). Scorsese ficou a cismar naquela câmara que sobe ao terraço de um edifício, onde as potências internacionais se divertem, fazendo do regime do Presidente Fulgencio Batista (1901-1973) o seu parque de diversões e espoliações, e depois desce do outro lado e mergulha numa piscina de hotel.

Ou aquele, ainda mais "impossível": o plano começa na rua, a câmara sobe a um edifício, passa para outro, onde está instalado um atelier de charutos, percorre-o, sai pela janela e voa sobre uma rua onde decorre o funeral de um estudante morto durante uma manifestação contra Batista.

Por isso decidiram juntar-se, Coppola e Scorsese, e distribuir Soy Cuba comercialmente nos Estados Unidos. Foi então que o filme que os soviéticos e os cubanos tinham esquecido mal tinha sido acabado — sobre essa incompreensão mútua conversamos neste episódio do podcast — pôde recomeçar a viver e ser redescoberto, três décadas depois. Com um aval de tipo absolutista de Scorsese: se tivesse sido difundido e conhecido em 1964, dizia o realizador em 2003 numa entrevista ao crítico de cinema e escritor Richard Schickel, "o cinema teria mudado", "o cinema teria sido diferente mais cedo".

É este filme que vamos descobrir no dia 13 de Agosto. Um Verão quente (cinéfilo) confirma-se: A Saga de Anatahan, de Josef von Sternberg (dia 6), Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov (dia 13), A Piscina, de Jacques Deray (dia 20) integram um programa de clássicos que descem às salas.

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Tom Cruise vai salvar o mundo (de novo). Seth Rogen não sabe se se salva a si mesmo — e isso tem graça24 Jul 202600:36:24

Rei morto, rei posto: ainda Ulisses não chegou a casa (mas a Odisseia de Christopher Nolan, como se previa, bateu recordes de bilheteira logo nos primeiros dias) e já as redes sociais se agitam com imagens do próximo blockbuster.

Para vermos o filme completo, temos de esperar por Outubro, mas o trailer já está aí. Falamos de Digger de Alejandro Iñarritu, mas falamos sobretudo da sua estrela, um quase irreconhecível Tom Cruise, envelhecido e mais gordo através de próteses, no papel de um bilionário excêntrico.

O discurso motivador do actor na cerimónia de encerramento do Mundial de Futebol, no estádio MetLife, em Nova Jersey (há quem diga que ficou desiludido porque esperava um impacto maior) começou logo a ajudar como promoção do filme. E fez lembrar o seu voo sobre outro estádio, noutra cidade, noutro país: Paris, Stade de France, final das Olimpíadas de 2024. Diferente cenário, mas a mesma vontade de tornar o mundo (a América, ele próprio) grande outra vez. Será impressão nossa ou a cadência da voz de Trump pareceu ecoar no discurso de Cruise?

Actor corajoso e talentoso —​ não esquecemos De Olhos Bem Fechados, um salto de fé com Kubrick — é o tipo de estrela que parece engolir tudo à sua volta. Nós pusemo-nos a olhar para esse hype.

O que nos levou a outro actor. Que em alguns casos é também realizador e produtor: Seth Rogen. Junta-se a Oliva Wilde, realizadora e actriz de O Convite, e a Penélope Cruz e Edward Norton, numa comédia dramática sobre a vida de casal. É um inesperado sucesso neste Verão. E é o pretexto para falarmos sobre intérpretes — por exemplo: haverá demasiada auto-irrisão em Rogen, o eterno anti-galã desajeitado que, apesar disso, muitas vezes fica com a miúda?—, os registos televisivo e cinematográfico, a influência do humor de canadianos e judeus em Hollywood, e até o que faz o sotaque de Penélope Cruz à sua carreira.

E porque nem só de blockbusters ou de sucessos inesperados se faz o cinema, não esquecemos uma pequena pérola indiana que está nas salas, O Canto das Árvores Esquecidas, de Anuparna Roy — a Índia das castas, as pressões sociais, os homens que usam as mulheres, as mulheres que usam os homens mas que criam laços únicos entre elas. Um filme muito pessoal, profundamente corajoso, feito com poucos recursos — nos antípodas de Digger.

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O tradutor de Homero não quer ver "A Odisseia". Porquê, Frederico Lourenço?17 Jul 202600:37:12

A Frederico Lourenço devemos-lhe estes épicos trabalhos: em 2003 traduziu em verso, do grego, a Odisseia de Homero (pela qual recebeu o Prémio D. Dinis da Casa de Mateus e o Grande Prémio de Tradução APT/Pen Clube), e, dois anos depois, a Ilíada; em 2016, passou dos clássicos gregos para a Bíblia grega, e isso foi o pretexto mais próximo para a atribuição do Prémio Pessoa.

É também ficcionista, ensaísta e poeta. E professor universitário. Concentrado nos estudos e na tradução do grego e do latim, não deixou no entanto de ser o cinéfilo que sempre foi. Trabalhou inclusivamente como crítico deste jornal.

E foi por isso também que tivemos o prazer de fazer este herói regressar a casa. Por um episódio do podcast No Escuro. Para nos explicar as suas razões: é que decidiu não ir ver A Odisseia, de Christopher Nolan.

Têm de ouvir a conversa para saber porquê. Resumido seria assim: desde os oito anos, quando leu pela primeira vez uma versão juvenil de Odisseia, que o futuro helenista tem todo esse filme na cabeça; por isso, tudo o que alguém queira acrescentar com actores e efeitos especiais, não menosprezando a capacidade de uma grande produção em levar mais leitores aos clássicos, parece-lhe redundante.

Mas nós vimos o filme. E como o resto do mundo, estamos divididos. Entre a crença na proposta de aventura e, do outro lado, a confirmação de que Christopher Nolan pensa e opina como um cineasta do século XX — a importância das salas e o sortilégio da película, o braço de força com as plataformas de streaming — mas faz filmes do século XXI: uma sopa triturada, sem dar a provar a distinção, a nobreza, dos ingredientes que utiliza.

Em suma, também se pode perguntar: é redundante ou é útil esta entrega de Ulisses a quem nunca pensaria em ler a Odisseia e pode, afinal, aventurar-se por ela?

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No cinema americano quanto mais quente melhor10 Jul 202600:39:53

Quais são os filmes mais quentes do cinema norte-americano? Há ondas de calor na tela pelo menos desde os anos 50 do século passado. Mas se nesse tempo de alguma inocência, elas libertam — as pernas de Marilyn quando o seu vestido branco é levantado pelo ar do respiradouro do metro em O Pecado Mora ao Lado —, em tempos de maior tensão, elas oprimem: veja-se, já nos anos 90, a fúria de um homem vulgar numa cidade que lhe é hostil, o Michael Douglas de Um Dia de Raiva.

Há calor que traz os segredos para onde podem ser vistos por todos, como em Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, e calor que faz os ódios acumulados explodirem nas ruas, como o de Não Dês Bronca, de Spike Lee ou o de Um Dia de Cão, de Sidney Lumet, com Al Pacino num falhado assalto a um banco num dia de calor excepcional.

Nos filmes adaptados de peças de Tennessee Williams, é o calor sufocante do Sul dos Estados Unidos que molda os conflitos. O corpo suado de Marlon Brando em Um Eléctrico Chamado Desejo é a imposição de um lado selvagem contra o frágil verniz social da cunhada, a Blanche Dubois de Vivien Leigh. Em Gata em Telhado de Zinco Quente, os conflitos familiares explodem mas o cinema, esse meio de massas, não pode ir tão longe quanto a escrita de Tennessee Williams e, por isso, a homossexualidade de Brick, a personagem de Paul Newman, é apenas sugerida — tal como a possibilidade de infidelidade de Richard Sherman (Tom Ewell) de O Pecado Mora ao Lado não passará de uma fantasia nunca concretizada.

O calor opressivo — de diversas formas — do Sul é diferente das temperaturas escaldantes de cidades como Los Angeles ou Nova Iorque. Mas ambos marcam no nosso imaginário essa América criada pelo cinema. Neste episódio do No Escuro, a partir de um Portugal que enfrenta uma onda de calor, perguntamos o que nos querem dizer os filmes em que os termómetros não param de subir.

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Muitos dos melhores filmes do ano são feitos por mulheres. "L’ Aventura" confirma-o03 Jul 202600:37:39

Para Vasco Câmara, este filme - L'Aventura, da realizadora francesa Sophie Letourneur - é "um dos acontecimentos cinematográficos do ano em Portugal". Foi, por isso, para nós o ponto de partida para uma conversa sobre o cinema realizado por mulheres e a forma como, não só este ano mas este ano de uma maneira muito evidente, nos tem trazido algumas das melhores surpresas.

No caso deste filme, o Verão, mas um Verão, em viagem por Itália, colado à pele das pequenas coisas que são as férias: crianças que fazem birras, quartos alugados que não são o que se esperava, uma filha mais velha que exige atenção, a decisão de onde se vai comer, o que se vai comer, a que praia se vai, tudo o que corre mal, e também o que corre bem, os momentos de tédio e, de repente, algo que os faz rir todos juntos. E, no meio disto, um casal (ela é a própria Sophie Letourneur, ele é o actor e músico Philippe Katherine) que se vai afastando. Nada de dramático. A vida, afinal. Mas não é fácil filmá-la assim, tão perto do que é a banalidade do quotidiano, e é isso que torna o trabalho de Sophie Letourneur tão extraordinário - antes deste filme houve outro, Voyages en Italie (2023) também as férias, também Itália, o mesmo casal, outro momento.

Little Trouble Girls também está nas salas e também foi realizado por uma mulher, a eslovena Urska Djukic, sobre mulheres, neste caso sobre raparigas, meninas de coro (literalmente) às voltas com o corpo e o desejo. Aqui, temos a música como manifestação de um corpo (individual e, depois, colectivo), as perguntas, a fé (das outras), as traições, a culpa, o aprender a crescer, a descoberta de que se é uma pessoa de corpo inteiro. Mais um pretexto, a juntar ao filme de Sophie Letourneur, para nos interrogarmos sobre o que é isso de um cinema de mulheres, feminino - se é que faz sentido a pergunta. Não fugimos dela neste episódio 24 do No Escuro.

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Terror No Escuro: porque é que gostámos de "Obsessão" e não gostámos de "Backrooms"?26 Jun 202600:34:49

Quarenta anos depois, Terror na Auto-Estrada, de Robert Harron, em nova cópia 4 K regressa às salas. E o muito ambíguo encontro entre um virginal C. Thomas Howell e um apolíneo Rutger Hauer, na paisagem americana, que foi um êxito-surpresa no ano de 1986.

Como quem não quer a coisa... custou alguns tostões, fez milhões. E fez medo. Tornou-se um filme de culto. Está imaculado, asseguramos. Vale a pena experimentar a solidão na auto-estrada, o céu ilimitado e a chuva em ecrã grande. E depois regressar a casa ao som de Riders on the Storm, dos Doors, e a pensar: que bem ainda se filmava nos anos 80!

Um antepassado, mutatis mutandis, de Backrooms - O Labirinto, de Kane Parsons, e de Obsessão - A felicidade é relativa, de Curry Barker, que foram realizados por dois muito jovens cineastas que saltaram do Youtube para o ecrã de cinema, e que estão a constituir um êxito em todo o mundo, Portugal incluído, ultrapassando nas bilheteiras franchises como o último Star Wars.

Pelos dados da proposta, facilmente se conclui que o mundo não é de facto o mesmo, o cinema muito menos, e que hoje se sobrepõe a tudo as leituras do "fenómeno". É um círculo com algo infernal em que a atenção cria a atenção, e o jornalismo e a crítica se transformam em câmara de eco.

Há anos que se diz que o cinema de terror é o género que sobrevive ao abandono das salas pelos espectadores, os mais jovens sobretudo, e estes estão de facto a acorrer a Backrooms e a Obsessão. Assim sendo, o que interessa se os filmes são interessantes ou não? Ainda há espaço para falar disso?

Interessa. A nós interessa.

Propomos, então, neste episódios de No Escuro não ignorar o fenómeno sociológico mas tratar da coisa cinematográfica. Ligar, por exemplo, Terror na Auto-Estrada a Obsessão, que constituiu de facto uma surpresa pelo cinema de outros tempos que tem dentro.

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Como com Lennon e McCartney, entre Truffaut e Godard é preciso escolher?19 Jun 202600:46:07

Em 2005, a Cinemateca Portuguesa dedicou uma retrospectiva integral à obra de François Truffaut (1932-1984). Vinte anos depois, irradiando a partir do Cinema Trindade no Porto para o Nimas em Lisboa, uma “quase integral” – faltam dois filmes - volta a trazer às salas portuguesas um nome que fazia os espectadores deslocarem-se (a um já desaparecido cinema Londres, em Lisboa, por exemplo) para verem o “novo filme de…”

Seria O Último Metro ou A Mulher do Lado, ou Finalmente Domingo! (e Truffaut morreu a um domingo…). Foram os títulos finais da sua obra, ele que cedo demais foi levado por um tumor no cérebro. Quando morreu, tinha contribuído para a indústria cinematográfica francesa com a “invenção” do filme de autor popular.

É (também) por isso que François Truffaut é hoje um nome razoavelmente esquecido pela cinefilia, que entretanto santificou o seu compagnon de route tornado irmão desavindo chamado Jean-Luc Godard? Um é o conservador, o outro o radical?

Numa primeira abordagem a – assim se chama o ciclo - Ao Sol da Nouvelle Vague (é todo o Truffaut, excepto A Noite Americana e Fahrenheit 451- Grau de Destruição, cujos direitos neste momento estão em transição), convidamos dois programadores: o “nosso” Luís Miguel Oliveira, da Cinemateca Portuguesa, e Francisco Valente, que também já foi nosso colaborador e colaborador da Cinemateca e que agora, em Nova Iorque, faz a curadoria da programação de cinema do Museum of Modern Art (MoMA).

O Luís Miguel trabalha com vista para o cartaz de O Acossado (Godard). Francisco Valente tem na parede o poster do ciclo de Truffaut de 2005 na Cinemateca. Com eles debatemos o significado de Truffaut hoje e inevitavelmente a oposição – que sempre mostra o rosto – entre duas figuras tornadas ideias opostas de cinema, François e Jean-Luc. Começamos por aqui e vamos por aí…

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Spielberg diz que não estamos sozinhos. Sabíamos desde 1977. Para quê voltar a isso?12 Jun 202600:29:51

Há meio século que Steven Spielberg já nos tinha avisado: eles estão entre nós. Eles são os extraterrestres, que chegaram ao cinema pelas mãos do realizador norte-americano em 1977, o ano de Encontros Imediatos de Terceiro Grau, um dos grandes momentos da arte cinematográfica do século XX.

E se agora Spielberg vem dizer que eles existem mesmo, que as Administrações norte-americanas nos têm escondido a verdade ao longo de décadas e que é chegado o momento da revelação — e se até Barack Obama disse recentemente acreditar que há vida noutros planetas (embora garanta que não há segredos escondidos) — a verdade é que nós já acreditávamos neles desde esse grande encontro de 77.

Acreditávamos mais do que acreditamos hoje neste regresso ao passado que é O Dia da Revelação (Disclosure Day), o novo Spielberg que acaba de chegar às salas. É disso que falamos neste episódio, da magia desses não humanos que há 50 anos se faziam anunciar (entre outras coisas) através de uma montanha de puré de batata, e que se repetiu mais tarde, em 1982, com ET, mas que não volta agora. Spielberg parece ter-se adaptado rapidamente à nova forma (e velocidade) de contar histórias — a história é a mesma mas a fantasia já não nos toca como antes.

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Jean Moulin, Thomas Mann, Estaline: viagem pelo mundo de ontem que pode ser o de hoje05 Jun 202600:27:52

Dois procuradores, do bielorusso Sergei Loznitsa: a partir de agora não vai ser possível continuar a sustentar que a obra de ficção do realizador é menos interessante ou grandiosa do que a obra documental.

Sim, já havia My Joy, com que Loznitsa se estreou na longa de ficção. Era um filme de tonalidade lynchiana. Mas o barroquismo de exercícios seguintes, a cotejar com o excesso felliniano, começou a fazer pender o centro de gravidade do cinema de Loznitsa para os grandes trabalhos com as imagens de arquivo da História soviética, sobretudo da era de Estaline, a que Loznitsa dava nova vida com o som. Como o majestoso Funeral de Estado (2019) sobre as exéquias do ditador.

Donbass, há oito anos, trabalhava a ficção absurdista. Era uma obra estranha, esquiva.

Dois Procuradores, então, regresso à ficção, traz um rigor empedernido e é mesmo um dos grandes títulos do ano. Na aparência de "pequeno filme", natureza miniatural, Loznitsa faz nele cinema de época, os anos 30 de Estaline, desde logo através do "clássico" formato quadrado, da escala e arquitectura dos planos. Adapta uma novela de Georgy Demidov, homem da Ciência que passou 14 anos no gulag estalinista e que dessa experiência se serviu para uma ficção escrita em 1969 que só seria publicada em 2009. Conta a aventura kafkiana de um zeloso procurador ao serviço da verdade bolchevique que se dá conta tarde demais que a verdade é uma viagem, como aquela de My Joy, sem regresso.

Estaline é a presença no cinema de Loznitsa. O seu rosto, de forma explícita e implícita. O "filme de época" é uma forma de iluminar o presente. O cinema tem estado aí, inquieto com o mundo à volta. É um dos balanços a fazer do Festival de Cannes, ou até mesmo do seu palmarés, e é essa viagem, europeia, assinale-se, que fazemos neste episódio: com o escritor Thomas Mann, num filme, Fatherland, de Pawel Pawlikowski, que reconstitui o regresso do escritor à sua Alemanha no pós-guerra, ou com o herói da resistência francesa Jean Moulin.

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Já temos dois Salazares. Só falta mais um...29 May 202600:41:34

José Filipe Costa psicanalisa o pai nosso. Isto é: psicanalisa-nos. Pai Nosso, Os Últimos Dias de Salazar não é um filme sobre o passado. Como aliás está a acontecer hoje com muitos "filmes de época": são mensagens para o presente. Mostrar o tempo que passou, o que já esquecemos e o que permanece latente.

Isto acontece nas salas esta semana.

Em Setembro, João Botelho estreará O Velho Salazar.

Tudo diferente e tudo igual. Aliás, um completa o outro.

O primeiro é onírico, fantasmagórico. Disse-nos um dia José Filipe Costa: "O passado não é uma coisa fixa, o passado é memória. E o cinema efabula. Deve muito à História, mas ao mesmo tempo não lhe deve. As narrativas cinematográficas vão a lugares onde a História não chega".

Tudo se passa em São Bento, huis clos e ambiente de folie, quando Salazar (Jorge Mota), depois do AVC, continua a pensar que é ele que ainda lidera o governo, e Maria de Jesus (Catarina Avelar) garante esse teatrinho do poder.

O segundo é mais farsante mas a partir de dados e factos cronológicos. Como um falso documentário.

Não há dois sem três? Diria o outro que sim...

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Cannes: nos bastidores de um dos maiores festivais de cinema do mundo22 May 202600:39:04

O que é que importa realmente num festival de cinema? Os filmes? A passadeira vermelha? A avaliar pelas fotografias que as agências enviam diariamente sobre a 79.ª edição do Festival de Cannes, é a segunda, onde desfilam os "talentos" vestidos por costureiros e disputando a atenção de um público que não perde este desfile de estrelas — mesmo que perca os filmes. Entretanto, nas salas de cinema, os críticos (os que ainda existem) vêm os filmes e tentam produzir discurso sobre eles.

Vasco Câmara é o enviado do PÚBLICO a Cannes e conta-nos o que é esta vida dupla que a pequena cidade da Riviera francesa vive por estes dias, compara o ambiente de hoje com o do passado, explica como actores, realizadores, jornalistas e um número crescente de influencers se movem no universo do cinema, gerindo interesses e necessidades distintos para responder a públicos distintos.

Neste episódio do No Escuro vamos, portanto, espreitar os bastidores de Cannes, mas vamos também falar de Não Desviar o Olhar, filme de Júlio Alves que passou recentemente no IndieLisboa e que nos traz o olhar de quatro críticos de cinema — Vasco Câmara, Luís Miguel Oliveira (também do PÚBLICO), Inês Lourenço e Ricardo Vieira Lisboa — sobre os filmes que os marcaram. É uma viagem pelas imagens que (lhes) povoam a vida e uma reflexão sobre o que é isso de ser crítico de cinema.

Vamos andar, por isso, sempre No Escuro — mas sem esquecer a passadeira vermelha.

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Da curta feita na escola de cinema à adaptação de Coetzee, estes são portugueses em Cannes15 May 202600:49:53

São duas curtas e uma longa, três filmes, três realizadores portugueses que vão estar no festival de cinema de Cannes (de 13 a 24 de Maio). Tiago Guedes, realizador da longa, Aquí, adaptação da Triologia de Jesus de J.M. Coetzee, Daniel Soares, realizador de Algumas Coisas que Acontecem ao Lado de um Rio, e Clara Vieira, estudante de cinema, que viu com surpresa a sua primeira obra, um trabalho para a escola intitulado Onde Nascem os Pirilampos, seleccionada para o festival francês. É com eles que conversamos neste episódio do No Escuro.

Quisemos saber o que esperam de Cannes, o que significa para um realizador a presença neste festival (mesmo quando, como acontece com Aquí, não seja a concurso), mas sobretudo quisemos ouvi-los falar dos seus filmes. Aquí passa-se num não-lugar, numa língua que, por vontade do escritor, se quis outra e portanto é o espanhol, traz um pai e um filho sem passado, uma família que se tenta construir enquanto tal, a dança como forma de entender o mundo e um universo que se abala e recompõe através de uma criança que esconde mistérios que é melhor não tentarmos compreender nem explicar.

No filme de Daniel Soares, o título é literal e a narrativa fragmentária leva-nos ao longo das margens de um rio revelando o absurdo que existe nos insignificantes momentos do quotidiano, enquanto a obra de Clara Vieira é um trabalho pensado de forma colectiva, em torno de um grupo de amigos, um bosque, os seus mistérios e as suas descobertas, um espaço com algo de fantástico que traz ecos do realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

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A Inteligência Artificial vai exterminar-nos? Primeiro No Escuro ao vivo08 May 202600:45:48

Ghost in the Machine, de Valerie Veatch, foi um dos títulos em destaque no último Sundance Film Festival e foi um dos filmes programados no Indielisboa, festival que ainda decorre. Por causa desse documentário, No Escuro saiu pela primeira vez do estúdio de gravação e participou num debate — aconteceu no último fim-de-semana, na Culturgest, em Lisboa — que tentava enquadrar a torrencial muralha de informação, dúvidas e angústia que do filme se liberta.

O que é a Inteligência Artificial e que forças, ideológicas, políticas, a dominam? Onde já vai a idade dourada, salvífica, da relação do homem com a tecnologia? É o tempo, hoje, do "tecno-fascismo"?

Em suma, é desta que vamos ser exterminados? Ou esta angústia é apenas a enésima variação de um medo ancestral do homem perante a máquina?

Participaram neste debate dois cépticos e um optimista. É o que podemos chamar, optimista, a José Bragança de Miranda, professor da Lusófona, especialista em Teoria da Cultura e dos Media, Cibercultura e Artes Contemporâneas. Talvez seja, no caso dele, a sedução do caos.

Já Bruno Abib, que estudou na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa e desde 2017 trabalha como montador em curtas e longas-metragens de ficção e documentário, e Catarina Rao, designer gráfica que tem desenvolvido o seu trabalho numa vertente mais pessoal e também para marcas comerciais, têm metido as mãos na massa, como se costuma dizer. Utilizam ferramentas da IA. E estão num momento de dúvida e de questionamento pessoal.

Oiçam-nos.

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Entre "O Diabo Veste Prada 2" e "Divina Comédia" fazemos a nossa escolha01 May 202600:33:49

No Escuro, connosco, é às claras: encorajamos vivamente Divina Comédia, de Ali Asgari, resistimos ao condicionamento que é a operação chamada O Diabo Veste Prada 2.

Chamem-lhe resistência, chamem-lhe o que quiserem: para quê precipitarem-se por estes dias em direcção ao novo duelo entre Miranda Priestly e Andrea Sachs, já que as vossas expectativas serão derrotadas — repararão que todas as personagens estão agora à procura da sua humanidade perdida e que a boa e velha maldade foi apagada —, quando têm a possibilidade de se divertirem de forma inteligente com o absurdo do mundo?

O primeiro filme já todos sabem o que é. O segundo, não: é uma comédia negra, passada em Teerão, em que um realizador, de motoreta como Nanni Moretti em Querido Diário, anda pelos círculos do Inferno a tentar que as autoridades iranianas autorizem a exibição do seu filme. Nanni é um fã, exibiu o filme na sua sala de cinema em Roma.

Quem avisa, amigo é: Divina Comédia!

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Projecto Global e FP-25: o espectador confrontado com a “ambiguidade moral”24 Apr 202600:42:22

Ivo M. Ferreira pegou, sem medo, num tema difícil: o terrorismo da extrema-esquerda em Portugal no início dos anos 80 e a história das FP-25. Ficcionar uma realidade para a qual o país não se tem mostrado preparado para olhar de frente é sempre um risco, mas o realizador assume-o. Ao lado dele está um conjunto de actores, com destaque para Jani Zhao, a operacional Rosa (entrevistas com ambos e com o historiador Francisco Bairrão Ruivo no Ípsilon).

Neste episódio do podcast No Escuro discutimos este olhar para um fenómeno de uma história muito recente, a propósito da estreia do filme Projecto Global, e perguntamo-nos se pode haver uma glamourização da violência, não só no caso português mas noutros, das Brigadas Vermelhas em Itália aos Baader-Meinhof na Alemanha. O terreno é escorregadio, as zonas cinzentas são muitas — Ivo assume que é precisamente isso que lhe interessa, uma "ambiguidade moral" que faça justiça à complexidade. E como nos posicionamos nós, espectadores, perante isto?

E das trevas da violência terrorista vamos até à luz que doura os corpos dos jovens nas praias do Sul de França com o mais recente filme de Abdellatif Kechiche, Mektoub, Meu Amor: Canto Segundo. Uma americana voraz invade este último tomo de uma triologia da qual só pudemos ver antes o Canto Primeiro. Entre sexo, sensualidade e violência, será esta também esta uma leitura possível sobre uma América que, quando Kechiche filmou, começava a revelar a sua voracidade? O que parece evidente é que o sol do Canto Primeiro já não brilha da mesma maneira e as sombras invadem este Canto Segundo. Vamos tentar perceber porquê.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

Siga o podcast No Escuro e receba cada episódio semanalmente, à sexta-feira, no Spotify, na Apple Podcasts ou noutras aplicações para podcasts.

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Marilyn Monroe, 100 anos: o que procuramos nela, hoje?17 Apr 202600:43:55

Quando morreu, na madrugada de 4 para 5 de Agosto de 1962, na sua vivenda de estilo mexicano de 5th Helena Drive, em Brentwood, Los Angeles, dificilmente se apostaria que a vida de Marilyn Monroe (nascida a 1 de Junho de 1926, faria cem anos daqui a dois meses) estava para durar.

Reparem: o MoMA de Nova Iorque realizou uma retrospectiva em Março, abrindo o programa, Marilyn Monroe: Celluloid Dreams, com O Pecado Mora ao Lado, de Billy Wilder, realizado em 1955, ano que foi, entre todos, o mais decisivo para a imposição de Marilyn como estrela planetária. O programa contemplava na placidez do seu roteiro comemorativo de centenário, um ciclone: Mulholland Drive, de David Lynch, ou o diálogo de Marilyn com um dos grandes títulos do século XXI.

É isso: ela não parou de nos falar. O que nos terá para dizer? O que continuamos hoje a procurar nela? Porquê o impulso de a resgatar, de a salvar, de provar que estava ali um dos mais luminosos, intuitivos talentos que a luz do cinema iluminou?

Junho será o mês Monroe no Batalha Centro de Cinema, no Porto, no ciclo O Verão de Marilyn, com os seus clássicos.

Mais do que os clássicos, a retrospectiva que decorre até 14 de Maio na Cinemateca Francesa em Paris propõe títulos mais desconhecidos, como We're Not Married, de Edmund Golding (1952), Clash by Night/Desengano, de Fritz Lang, Love Nest, de Joseph Newman (1951), ou o encontro de Monroe com os irmãos Marx, Love Happy (David Miller, 1949), ou uma interpretação de baby-sitter desequilibrada, ao lado de Richard Widmark, no huis clos Don't Bother to Knock/Os Meus Lábios Queimam (1952), de Roy Ward Baker.

É este título pouco conhecido, um dos raros papéis dramáticos de uma carreira que em 1952 ainda só tacteava, que abrirá a 5 de Maio o ciclo Quem és tu Norma Jean? 100 anos de Marilyn Monroe, na Casa Comum da Universidade do Porto.

While the City Sleeps, Quando a Cidade Dorme, um noir de John Huston, inaugurou, por sua vez, esta quinta-feira o ciclo da Leopardo que se desenrolará no Cinema Nimas até 13 de Maio.

O mundo viu-se a (re)descobrir Marilyn Monroe. É das figuras mais perenes, duradouras, da fábrica americana chamada Hollywood. É mais respeitada, mais consensual hoje do que quando morreu no início da década de 60 — a década, repare-se, que apagou o brilho das estrelas que havia no firmamento. Foi adoptada por diferentes vagas de feminismo. Tem direito a extensa bibliografia, biográfica, ensaística, ficcional (Joyce Carol Oates fantasiou-a em Blonde) e fotográfica. Foi revisitada por grandes fotógrafos em várias "fases", tal como as de um pintor: George Barris, que a fotografou pela última vez na praia de Malibu, Richard Avedon, Bert Stern, com a esplêndida série The Last Sitting, ou, a que mais tentou resgatar a sua humanidade, o conjunto melancólico de fotos de Milton Greene.

Uma das maiores fãs de Marilyn é a actriz Catherine Deneuve. Que em Maio juntar-se-á à edição francesa de um livro, Marilyn chérie (Flammarion). Texto de Deneuve, fotografias pouco conhecidas de Marilyn da autoria de um produtor e fotógrafo seu amigo, Sam Shaw, cenas de rodagem e de testes de guarda-roupa. Um excerto escrito por Deneuve, que a imprensa francesa tem reproduzido: "Perante os fotógrafos, ela era tão generosa com o seu corpo, o rosto inclinado para trás, algo de infantil também, que nada nela era indecente".

É sobre a festa dos seus 100 anos este episódio de No Escuro.

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"Caso 137" e "Nino": regressemos ao "french touch"10 Apr 202600:31:35

Depois do cinema espanhol, na semana passada, o cinema francês, esta semana. É mais um episódio de No Escuro.

Portugal não tem tido razão de queixa dos distribuidores/exibidores independentes, que têm actualizado o mercado e os espectadores — por exemplo, nos últimos anos, as transgressões dos cineastas iranianos chegaram-nos a tempo e horas.

Podemos é perguntar se os espectadores estão à altura deste esforço...

Não é uma questão lateral, essa. É mesmo decisiva. Se bem que centramos a conversa, agora, na presença em sala de dois recém-premiados com os Césares da indústria francesa: Caso 137, de Dominik Moll, Nino, de Pauline Loquès.

Dois retratos: de senhora, uma investigadora da polícia, interpretada por Léa Drucker, numa espécie de thriller processual, seco, despojado; de rapaz, um jovem (Théodore Pellerin) diagnosticado com um cancro, cujo comportamento a câmara observa durante um fim-de-semana antes do início do protocolo da quimioterapia: o corpo é aqui o plot.

Haverá ainda memória de um tempo em que a cinematografia francesa disputava as bilheteiras, nas salas portuguesas, com o cinema americano? Que cineastas como Alain Resnais, por exemplo, eram programados em salas vocacionadas para a maioria do público burguês adulto que ia ao cinema? Lembramos isso aqui...

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O cinema espanhol filma a intimidade e a família. O cinema português não?03 Apr 202600:43:59

Três títulos espanhóis que estão nas salas portuguesas —​ Histórias do Vale Bom, de José Luis Guerin, Os Domingos, de Alauda Ruiz de Azúa e Romaria, de Carla Simón —​ levam-nos a reflectir sobre os caminhos diferentes percorridos pelo cinema em Espanha e em Portugal.

Se os realizadores espanhóis desde sempre estiveram nas casas e filmaram os dramas familiares, fazendo a partir deles também leituras políticas, mesmo durante o período do franquismo, os portugueses, no geral, evitaram os territórios de intimidade. Porquê?

E até que ponto a ausência de uma classe média e dos seus pequenos problemas pode ajudar a explicar o tão discutido afastamento dos portugueses em relação ao cinema feito no país?

A força do cinema português no período revolucionário, o fenómeno Manoel de Oliveira e a forma como ele marcou (e marca ainda) uma série de preconceitos sobre a cinematografia nacional, fazem desta um caso muito particular. De tal forma que se hoje uma nova geração faz filmes muito diferentes (do passado e entre eles), os preconceitos perduram. Espectadores novos precisam-se?

Os espanhóis têm também o seu mito, Pedro Almodóvar (acaba de estrear em Espanha Amarga Navidade). É a locomotiva que puxa pelas carruagens. Mas as três obras que podem ser vistas agora em Portugal nada devem ao universo almodovariano.

Histórias do Vale Bom mergulha na complexa realidade de um bairro na periferia de Barcelona, entre o mundo urbano e o rural, com os seus habitantes antigos e os que chegaram mais recentemente, com línguas e culturas diferentes; Os Domingos apresenta-nos Ainara, uma jovem que quer ser freira e enfrenta a oposição da família; e em Romaria seguimos outra jovem que viaja até Vigo em busca das histórias dos seus pais, toxicodependentes e vítimas de sida, e confronta-se com uma família a lidar com os seus próprios fantasmas.

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O magnetismo de Ana Vilaça, "Entroncamento": de onde vem a força de uma actriz?27 Mar 202600:47:33

Em By Flávio, curta-metragem de 2022 dirigida por Pedro Cabeleira, espampanante de recorte e de imponência hiper-realistas, na pretendente a influencer interpretada por Ana Vilaça a actriz ameaçava-nos já com o seu talento: afrontosamente brilhante, não necessariamente narcisista, ao serviço de uma desesperada.

Em Entroncamento, a segunda longa do realizador, desde esta quinta-feira em 28 salas do país, acontece algo do domínio da superação. Nela e no filme. Sobre Ana: é poderosa e esfuziante.

A actriz tem 34 anos. Diz-se detentora de um sentimento de não pertença, a lugar nenhum, e verteu isso para a personagem de Laura. Que é um dos statements políticos femininos mais vibrantes do recente cinema português, como Cleo Diára em O Riso e a Faca (Pedro Pinho, 2005).

Por causa disto: Laura — a única personagem do filme que é totalmente de ficção, sem correspondência na realidade que Pedro Cabeleira conheceu na cidade da sua infância — passa por Entroncamento e leva com ela debaixo do braço um pedaço grande do filme; isto porque Ana entrou na dinâmica e na mente dos argumentistas e do seu fascínio, masculino, pela mitologia dos fora-da-lei, dos pequenos gangsters.

Laura vem de fora e subverte um mundo de construções misóginas e racistas. Pertencer-lhe-á o último golpe. Neste episódio de No Escuro sabemos algo mais de Ana. Falamos sobre o que é isso do magnetismo; sobre a raiva e sobre o talento.

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Leni Riefenstahl e a estética nazi: estes filmes ainda são perigosos?20 Mar 202600:40:30

No ano, 1993, em que chegou ao mercado literário americano e ao seu top de vendas Leni Riefenstahl: A Memoir, uma autobiografia daquela que fora a cineasta do III Reich, o realizador alemão Ray Müller fazia sair The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl.

Confrontava, e era mesmo um corpo a corpo entre Ray e Leni, aquela que, desnazificada em 1949 pelos tribunais do pós-guerra que não deram como provada a ligação entre os seus filmes de propaganda — Triunfo da Vontade (1935), sobre o congresso do Partido Nazi em Nuremberga, um ano antes, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de Verão, em Berlim 1936, estreado no dia do aniversário do Führer —, mantinha que fora apenas uma simpatizante, fascinada pela aura “electrizante” de Hitler, mas nada mais; tudo o resto ela dizia desconhecer, dos “campos de concentração” nem ouvira falar.

Em suma, era uma “artista” das formas, e da “política” era uma naïve.

Riefenstahl fez a travessia dos talk shows televisivos alemães e norte-americanos ao longo dos anos 70 e 80, onde era promovida a celebridade, e continuou a tentar reescrever a sua história. Não filmou mais, fotografou os Nuba do Sudão, e aos 101 anos, quando morreu, em 2003, fora admirada por gente como Pauline Kael, Richard Corliss, críticos, Andy Warhol ou Quentin Tarantino.

O documentário que chega esta semana às salas portuguesas, Riefenstahl, de Andres Veiel, aparece 30 anos depois de The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl mas cita-o e faz-se memória do gesto delineado antes dele pelo filme de Ray Müller e que tem de ser renovado. Combate não para acabar com os combates anteriores, mas, meticuloso, para se colocar na mesma linha e para permitir que se continue a combater.

Veiel questionou o arquivo de imagens e de sons de Leni a que teve acesso e que lhe pareceu organizado como se houvesse coisas que deviam ser lembradas e coisas que deviam ser esquecidas.

É com essa urgência também das coisas que hoje não podem ser esquecidas que se encara a exibição, em contexto à estreia de Riefenstahl, e em sessões especiais a realizar no cinema Ideal, em Lisboa, de Olympia, sábado às 11h e às 14h, primeira e segunda partes, respectivamente, e de Triunfo da Vontade, 11h de domingo. A seguir à sessão das 16h do documentário de Veiel, o podcast No Escuro estará no Ideal para um debate.

Começamo-lo já aqui. Neste episódio. Falando com Pedro Borges, da Midas Filmes, que lança o filme e o programa.

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Os nossos Óscares; e "O Estrangeiro" de Camus que chega às salas: como olhá-lo?13 Mar 202600:46:30

Batalha atrás de Batalha ou Pecadores? Paul Thomas Anderson ou Ryan Coogler? E o que fazer a Marty Supreme? Cedo ainda demais para Josh Safdie?

E será Timothée Chalamet o seu pior inimigo nesta competição?

Dizer mal dos Óscares mas não parar de falar deles... é o ritual. Quanto a nós, No Escuro, achamos que os prémios americanos são uma interessante maneira de falarmos de nós, espectadores. Devidamente contextualizados, são bem reveladores do nosso tempo. Dizem mais sobre quem os dá do que sobre quem os recebe.

É por isso, também, que nos interessa a forma como François Ozon olhou para o romance que Albert Camus publicou em 1942, O Estrangeiro, e que desde então permanece opaco, misterioso, ambivalente. Uma emanação da França colonial — o livro passa-se na Argélia colonizada — ou um exercício sobre o absurdo, sobre um alienado, Meursault, condenado à morte porque não chorou no funeral da mãe, não porque matou "um árabe".

Ozon lê o livro a partir de 2025, usando a história do cinema francês, a literatura e até a música — The Cure estrearam-se no pós-punk com Killing an Arab, resultado das leituras de Robert Smith — como instrumentos para chegar mais perto de Meursault; para perceber o que nos diz o seu reflexo no espelho.

Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

Vamos falar de cinema?

Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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"Mr. Nobody contra Putin", "A Noiva", e "Blue Moon": retratos de dissidentes06 Mar 202600:35:23

Pavel "Pasha" Talankin é um herói solitário no documentário que está na corrida aos Óscares Mr. Nobody contra Putin. Não é uma personagem de ficção, é um professor de uma escola em Karabach, Rússia, que tem nas mãos uma arma poderosa: uma câmara de vídeo.

De observador passa a realizador e a denunciante. O que as suas imagens mostram é como a máquina de propaganda criada pelo Governo está a fazer o seu caminho nas escolas, entre as crianças. Há mercenários do Grupo Wagner a fazerem uma sessão sobre armas; há concursos de lançamento de granadas, jovens chamados para a guerra. Uma sociedade vai mergulhando no medo e no silêncio.

O norte-americano David Borenstein, noutra parte do mundo, que vai tendo acesso ao material, encaminha o olhar do russo e dos dois tornam-se co-realizadores. Mas é o olhar de Pasha, complexo, entre aquilo que ama profundamente e aquilo que rejeita ainda mais visceralmente, que faz a força deste filme.

Fala-se da Rússia, também no cinema: O Mago do Kremlin, de Olivier Assayas, a estrear na próxima semana, é um retrato do país desde os anos loucos de Ieltsin até ao reinado de Putin, adaptando o livro do italiano Giuliano da Empoli. Com Jude Law a encarnar o Presidente russo, é um filme mais didáctico e cerebral - e, por isso, menos interessante que Mr. Nobody, que valeu a Pavel Talankin o exílio.

São também dissidentes, construtores dos seus mundos à parte, as personagens de A Noiva, segunda longa-metragem de Maggie Gyllenhall, e de Blue Moon, de Richard Linklater.

Também acha que Joker: Loucura a Dois, na sua aliança entre o insano e o radioso, é um filme que ficou por cumprir? A Noiva é mais bem sucedido como objecto malsão. E confirma Gyllenhall, depois de A Filha Perdida, como cineasta a seguir.

Já Blue Moon transporta-nos para um dia difícil na vida de Lorenz Hart, autor, em dupla com Richard Rodgers, de canções como Blue Moon, My Funny Valentine e The Lady is a Tramp. É um filme de teatro e de palavras, que mostra como é doloroso um artista desencontrar-se do tempo em que vive. Ethan Hawke é um extraordinário Lorenz Hart, devastado na noite de estreia do espectáculo Oklahoma!, um enorme sucesso assinado por Rodgers e o seu novo autor, Oscar Hammerstein.

Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

Vamos falar de cinema?

Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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Balane 3 e Ico Costa: falamos sobre sexo em Moçambique (e tiramos o elefante da sala)27 Feb 202600:34:25

Tem sido pouco mais do que confidencial o impacto causado pelas curtas e longas-metragens do cineasta português Ico Costa. Injusto porque todas elas amorosamente levitam no contacto com um espaço eleito e com as pessoas que nele habitam: a península que coloca a cidade de Inhambane a acenar para a cidade que está em frente, Maxixe; como Lisboa faz a Almada.

É a costa ocidental de África, é o sul de Moçambique. Com um lirismo contido, com empatia para com personagens que se expõem com uma frontalidade tal que o resultado, a intimidade, qualquer cineasta invejará. Passando constantemente do documental para a ficção, eis conversas sobre a vida sexual dos moçambicanos.

Pedimos contexto — e damos algum, neste podcast. Queremos programação na Cinemateca; até nos atrevemos a desejar por uma caixa de DVD. Tudo para colocar no mapa as curtas deste realizador e as longas O Ouro e o Mundo (2024), Balane 3 (2025), que esta semana chega às salas, e a primeira longa, Alva, (2020), a única filmada em Portugal.

Há, neste percurso, flutuações entre zonas de luz e zonas de sombra e mesmo de escuridão. Alguns filmes são sobre aquilo que Ico Costa sente sobre Moçambique: a alegria, a necessidade de futuro, a dança e o sexo, a juventude. Outros são sobre aquilo que o cineasta sabe: a ditadura do partido único, a corrupção, o horizonte interceptado. Mas vence em todos a ideia de que se as imagens sobre o país, quando as há, falam sempre da miséria e da pobreza, Moçambique é muito para além disso.

Balane 3 só chega agora às salas portuguesas, de forma discreta, como que a pedir que não se repare nele, porque em Abril do ano passado foi cancelado, juntamente com o seu realizador. A direcção do festival IndieLisboa, em vésperas do início da sua 22.ª edição, que aconteceria em Maio, retirava o filme da programação após uma denúncia de alegada violência cometida por Ico Costa sobre uma suposta denunciante que num email enviado à imprensa assinava como “Joana Sousa Silva”.

Esse gesto teve o efeito de uma condenação — fora do sistema judicial. Quase um ano depois, nem a dúvida se sanou nem a vítima, "Joana Sousa Silva", foi identificada. Ico Costa, que negou as acusações, apresentou uma queixa-crime para que o Ministério Público investigue e responsabilize a verdadeira pessoa por trás do mail “anónimo” e de “identidade falsa”. O PÚBLICO sabe que uma pessoa do sexo masculino está sob investigação.

Temos agora um filme. O que fazemos com ele?

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Vamos falar de cinema?

Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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Wim Wenders encostado à parede: “diz alguma coisa política!”20 Feb 202600:48:36

“Temos de nos manter fora da política, porque se fizermos filmes políticos então entramos no campo da política. Mas [o cinema é] o contrapeso da política, o contrário da política. O nosso é o trabalho do povo, não é o dos políticos.”

A frase do realizador alemão Wim Wenders, na conferência de imprensa do Festival de Berlim há uma semana, onde preside ao júri da competição, fez explodir uma polémica. Surgiram graffiti nas paredes a acusá-lo de cobardia.

A discussão sobre se o cinema deve ou não ser político esconde, na verdade, uma outra: devem os membros do júri da Berlinale tomar posição em relação ao que se passa na Palestina perante o silêncio do festival que é financiado pelo Governo da Alemanha que apoia Israel?

É legítimo "encostá-los à parede"? Ou será que Wenders, cineasta da geração do Novo Cinema Alemão, questionador do "milagre económico alemão" construído sobre a amnésia, sobre a rasura da memória do nazismo, quis dizer outra coisa e de forma mais subtil, com aquele "o cinema é o contrapeso da política", que é um statement de consequências políticas, limitando-se a ser fiel a si mesmo e a uma forma de estar no mundo que os seus filmes revelam?

É preciso olhar para o seu cinema para entender a sua frase e colocá-la num contexto mais profundo — algo a que as conferências de imprensa de hoje em festivais, presas ao impacto dos títulos nas redes sociais, tendem a escapar.

Mas há outra coisa: tem havido sempre uma relação esquizofrénica a propósito da relação do cinema com a política ou, dito de outra forma, com a política dentro do cinema. Não é recorrente ler-se ou ouvir-se que um palmarés de um festival foi "político", declaração essa que aponta para uma menorização? Onde ficamos então?

Veja-se: um dos filmes que segue a caminho dos Óscares, Foi Só Um Acidente, do realizador iraniano Jafar Panahi, recebeu a Palma de Ouro de Cannes em 2025 e também ele não se livrou logo na altura de um olhar de desconfiança: "foi um prémio político"; "se não fosse iraniano, seria considerado banal".

Voltamos por isso ao filme de Panahi, uma das estreias do final do ano passado. É uma obra que coloca o Irão perante o que será um dilema depois de o regime cair: o que farão as vítimas de hoje quando tiverem oportunidade de se vingar dos seus carrascos? É uma questão moral, tanto mais actual quanto a pressão dos Estados Unidos sobre o país dos ayatollahs está a aumentar. Depois dos mais recentes protestos na República Islâmica, e da violenta repressão como resposta, Jafar Panahi, actualmente fora do país, na campanha para os prémios da Academia de Hollywood, tem dito em entrevistas que regressará a casa; mesmo que o preço a pagar seja ser preso (novamente).

Sim, o cinema é político. O de Panahi certamente, mas o de Wenders também, de outra forma. Algo diferente é fazer política. É isso que discutimos neste episódio de No Escuro.

No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.

Vamos falar de cinema?

Sim, e vamos falar de outras coisas também.

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"A Voz de Hind Rajab": de Gaza a Auschwitz, o que pode um filme mostrar?13 Feb 202600:41:25

Como documento enxertado num filme de reconstituição, a realizadora tunisina Kaouther Ben Hania utilizou a voz de uma criança palestiniana no momento em que ela pediu ajuda antes de ser abatida pelas forças israelitas.

Hind Rajab, 6 anos, fugia de carro com a família do Norte de Gaza — estávamos a 29 de Janeiro de 2024 — quando o grupo foi surpreendido por um tanque. Os disparos mataram as seis pessoas que iam na viatura, e isso incluía os tios e os primos da criança, mas durante três horas houve contacto telefónico entre Hind Rajab, que inicialmente sobrevivera, com o ramo palestiniano da associação humanitária Crescente Vermelho, em Ramallah.

Esforçavam-se por manter Hind Rajab calma e viva. Até finalmente se ouvir uma explosão e ela deixar de responder. Eram 19h. Os dois paramédicos, enviados com uma ambulância para socorrer a criança, foram também mortos.

A câmara de Kaouther Ben Hania está colocada no cenário que reconstitui as instalações do Crescente Vermelho; actores interpretam os voluntários que atenderam a chamada de Hind Rajab. Mas a voz que os actores ouviram no set era a verdadeira voz da criança; o ficheiro com o som tinha sido partilhado enquanto tudo decorria nesse 29 de Janeiro de 2024 para tentar impedir a consumação da tragédia.

A Voz de Hind Rajab, Grande Prémio do Júri em Veneza 2025, recepção tão apoteótica quanto céptica no festival, atravessa uma fronteira moral, mistura o que não deve ser misturado, o jogo da ficção com o irremediável da realidade, a vida e a morte?

É uma das questões que marca este episódio de No Escuro. O que nos levou a meter na conversa outras obras igualmente reveladoras do poder do cinema e da sua violência, como Com a Alma na Mão Caminha, de Sepideh Farsi, e No Other Land, realizada por um quarteto israelo-palestiniano liderado por Basel Adra (palestiniano) e Yuval Abraham (israelita), títulos estreados o ano passado, este último até oscarizado, mas também um filme de 2015, O Filho de Saul, do húngaro Lazlo Nemes, em que o cinema vai a Auschwitz, que reactivou os dogmas sobre os limites da figuração do Holocausto.

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Como Ingmar Bergman nos leva de "Valor Sentimental" a João Canijo06 Feb 202600:50:46

Uma estreia, uma memória, um desaparecimento —​ tragicamente, e misteriosamente, ligados neste episódio.

Valor Sentimental, do norueguês Joachin Trier, que chegou às salas portuguesas, é o "filme europeu do ano", segundo os prémios da Academia Europeia de Cinema. Chegará aos Óscares com nove nomeações.

Valor simbólico, tem-no: com o seu arcaboiço memorialista, pendor reflexivo sobre o cinema, encarrega-se de personagens e temas que o cinema europeu em tempos fez seus até com vantagem sobre o cinema norte-americano — Ingmar Bergman, evidentemente... Foi numa época em que os filmes eram operações de prestígio visitadas por um público adulto, ardente e (mais) temerário.

Para resumir: os grandes planos dos rostos, aqui de Stellan Skarsgaard, Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas, premiados e nomeados a prémios, voltam a ser eleitos, reeleitos, pelo ecrã.

"Quando as pessoas dizem 'isto lembra-me Persona', 'isto lembra-me Fanny e Alexander'" — isto é, quis dizer Joachin Trier na entrevista que deu ao Ípsilon, quando as pessoas dizem que Valor Sentimental lhes lembra Bergman — "tomo isso como um elogio. Não quis roubar, não quis imitar, mas falemos disso então. Até porque na Noruega há muitos jovens que nunca ouviram falar de Ingmar Bergman. Que sortudo sou por ele ter existido. Bergman foi muito importante para Woody Allen. E a forma como Woody Allen lidou com essa presença, em filmes de uma enorme profundidade, é muito importante para mim".

Falamos, então, de Ingmar Bergman neste episódio. De Sonata de Outono (1978), o título que juntou na Noruega os dois Bergman mais famosos da Suécia, Ingmar e Ingrid. História também, como em Valor Sentimental, do sentimento de abandono de uma filha.

Mas vejam só: Sonata de Outono era um filme de cabeceira de João Canijo, que o terá inspirado para o díptico Mal Viver/Viver Mal.

Canijo: o realizador português que desapareceu, aos 68 anos, a semana passada; Canijo: o cineasta português contemporâneo que foi colocado ou se colocou mais à margem — sendo o seu cinema vocacionado esplendidamente para o centro; o mais incompreendido, nunca hesitou em incomodar.

Uma hipótese para esta relação complexa: ao contrário da era em que Bergman se tornou um cineasta do mainstream, o espectador de hoje vai em busca de epifanias e tem medo de se magoar.

Oiça a conversa em No Escuro. É um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).

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Lembrar ou esquecer as ditaduras: O Agente Secreto visto com José Miguel Wisnik30 Jan 202600:43:05

Por estes dias, e até à noite de Hollywood, a 15 de Março, os Óscares serão também o sítio das cores verde e amarelo. Por causa de O Agente Secreto. Já começou a guerrilha brasileira na internet. "The Oscar without brazilians is just plain boring?".

Pode ser. Mas que não seja só um exotismo. Para já, teremos de agradecer aos fãs brasileiros o facto de, com as batalhas travadas no ano passado, o ano de Ainda Estou Aqui, a cerimónia da Academia de Hollywood se ter tornado verdadeiramente global.

É a altura, em suma, de regressarmos a O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, nomeado em quatro categorias, entre elas a de melhor filme, melhor filme internacional e melhor actor (Wagner Moura), que continua em exibição nas salas portuguesas, a chegar aos 70 mil espectadores.

Nesta viagem — pelo Brasil da ditadura e do apagamento da memória, mas também pelo país do carnaval e da libertação e da inversão das regras, o Brasil da grande promessa — acompanha-nos José Miguel Wisnik, curador da exposição Complexo Brasil, na Gulbenkian, e ele próprio um cinéfilo, que coloca Brasil e Portugal a olharem-se olhos nos olhos. Como de resto o filme de Kleber, que também é um filme actual para os portugueses. Oiçam esta conversa.

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Qual é o filme mais político, "Batalha atrás de Batalha" ou "Orwell 2+2=5"?23 Jan 202600:43:50

Estamos No Escuro. Vamos falar de cinema, de realizadores e de actores, de cidades e de política; de poder e de democracia, dos que são livres e dos que foram subjugados, da realidade e dos nossos fantasmas.

Neste primeiro episódio de um novo podcast do PÚBLICO, discutimos as nomeações para os Óscares – que filmes se destacam nesta época de prémios, que peso têm as campanhas de promoção, e o que é que as escolhas revelam sobre a forma como se está a olhar a produção do último ano. Como se previa, Batalha Atrás de Batalha, de Paul Thomas Anderson, teve muitas nomeações (13) mas mesmo assim foi ultrapassado por Pecadores, de Ryan Coogler, com 16, um recorde de sempre. E O Agente Secreto, no meio de tudo isto? O rufar dos tambores no Brasil já ecoa pelo mundo.

Falamos também da estreia da semana, Orwell 2+2=5, o documentário do cineasta haitiano Raoul Peck – um filme profundamente político para arrancar um ano que ainda agora começou mas que já pede, com urgência, filmes como este. Que nos despertem. Será que, à nossa volta, tudo é Orwell (outra vez)?

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No escuro: para falar de cinema e de outras coisas também21 Jan 202600:01:13

Vamos falar de cinema e de outras coisas também. Para entender o mundo através dos filmes, com Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara.

 

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