No ano, 1993, em que chegou ao mercado literário americano e ao seu top de vendas Leni Riefenstahl: A Memoir, uma autobiografia daquela que fora a cineasta do III Reich, o realizador alemão Ray Müller fazia sair The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl.
Confrontava, e era mesmo um corpo a corpo entre Ray e Leni, aquela que, desnazificada em 1949 pelos tribunais do pós-guerra que não deram como provada a ligação entre os seus filmes de propaganda — Triunfo da Vontade (1935), sobre o congresso do Partido Nazi em Nuremberga, um ano antes, e Olympia (1938), sobre os Jogos Olímpicos de Verão, em Berlim 1936, estreado no dia do aniversário do Führer —, mantinha que fora apenas uma simpatizante, fascinada pela aura “electrizante” de Hitler, mas nada mais; tudo o resto ela dizia desconhecer, dos “campos de concentração” nem ouvira falar.
Em suma, era uma “artista” das formas, e da “política” era uma naïve.
Riefenstahl fez a travessia dos talk shows televisivos alemães e norte-americanos ao longo dos anos 70 e 80, onde era promovida a celebridade, e continuou a tentar reescrever a sua história. Não filmou mais, fotografou os Nuba do Sudão, e aos 101 anos, quando morreu, em 2003, fora admirada por gente como Pauline Kael, Richard Corliss, críticos, Andy Warhol ou Quentin Tarantino.
O documentário que chega esta semana às salas portuguesas, Riefenstahl, de Andres Veiel, aparece 30 anos depois de The Wonderful, Horrible Life of Leni Riefenstahl mas cita-o e faz-se memória do gesto delineado antes dele pelo filme de Ray Müller e que tem de ser renovado. Combate não para acabar com os combates anteriores, mas, meticuloso, para se colocar na mesma linha e para permitir que se continue a combater.
Veiel questionou o arquivo de imagens e de sons de Leni a que teve acesso e que lhe pareceu organizado como se houvesse coisas que deviam ser lembradas e coisas que deviam ser esquecidas.
É com essa urgência também das coisas que hoje não podem ser esquecidas que se encara a exibição, em contexto à estreia de , e em sessões especiais a realizar no cinema Ideal, em Lisboa, de , sábado às 11h e às 14h, primeira e segunda partes, respectivamente, e de , 11h de domingo. A seguir à sessão das 16h do documentário de Veiel, o No Escuro estará no Ideal para um debate.